terça-feira, 6 de junho de 2017

LUTO COSMOPOLENSE

ADEUS TONINHO DO RANCHÃO  
Texto adriano da Rocha
Fotos Acervo família Leoni
 



  Cosmópolis dá adeus ao filho que marcou a história de inúmeras gerações, principalmente os eternos jovens dos anos de 1970 e 80. Criador de um projeto comercial simples, sem muitos recursos, que inovou, mudou costumes e tornou-se referência regional da cidade, a Lanchonete e Restaurante Ranchão.

Faleceu no início da noite de segunda-feira (5), aos 71 anos de idade, Antonio Carlos Leoni, o popular Toninho do Ranchão. O corpo aguarda os amigos para última despedida no Cemitério Municipal da Saudade, onde às 16 h será feito o translado ao Crematório dos Amarais, em Campinas.
 
Ilustre personagem cosmopolense 

No fim dos anos de 1960, época de revoluções na política, música e costumes, o jovem Toninho Leoni, filho de percursores do transporte em Cosmópolis, resolveu fazer a sua revolução na cidade. O trabalho no comércio da família, a Auto Viação Cosmópolis, não era a predileção do jovem, que via na nova fase da cidade, uma excelente oportunidade comercial.

A pequena cidade transformava-se com a construção em Paulínia da Refinaria do Planalto, a Replan. Milhares de imigrantes chegavam em Cosmópolis, a cidade neste período despontava como um berço para os operários da gigantesca obra, a qual nascia como a maior refinaria da Petrobras no Brasil.
Cosmópolis crescia rapidamente as margens do progresso de Paulínia, antigos barracões dos áureos tempos das tecelagens, casas comerciais, velhos armazéns, eram transformados em hospedarias, pensões e hotéis.

Inovação para os jovens
Para atender a gigantesca demanda de novos moradores, surgiam lojas de roupas e calçados, e muitos bares. Mas, e o divertimento para os jovens na época, que assim como a cidade mudavam seus costumes!?

O divertimento seguia os costumes do interior paulista, dos tempos da velha guarda, algo já “maçante” como dizia a jovem guarda.

A moçada tinha como divertimento dar voltas nos jardins da Praça do Coreto, ouvir e oferecer músicas no serviço de alto falantes, assistir filmes no Cine Theatro Avenida, e reunir amigos para conversar nas esquinas da Rua Campinas, Santa Gertrudes e no largo da Matriz.

Sempre visionário e empreendedor, Toninho resolveu investir tudo que tinha pensando neste público, que jovem como ele, não tinha opções na cidade. Quem tinha carro, raras exceções, buscava divertimento em Conchal, Campinas e até Andradas, movimentando os comércios destas cidades.

O Ranchão da Avenida Ester
O registro do início dos anos 1990, mostra o Ranchão antes do incêndio que destruiu parcialmente o local
 
Com ajuda de amigos e da família, o sonho tornava-se realidade. Em um amplo espaço inutilizado, que no projeto inicial da Villa de Cosmópolis seria uma rua, o novo comércio nascia.

A construção era simples, chão de cimento queimado entre cacos de cerâmica, paredes de tijolo à vista com janelões, vigas de madeira e cimento formavam a estrutura, coberta com telhas de cerâmica e canaletão de amianto. Um verdadeiro rancho paulista, mas pelo tamanho do local, surgia o nome Ranchão.

Lanchonete, restaurante e ponto de encontro
O ambiente era dividido, com espaço reservado para lanches rápidos (preferência dos jovens) e refeições familiares. No enorme salão, contrastavam as disputadas mesas e cadeiras fixas de cimento (iguais às de praças), entre mezaninos de madeira e aço, fornecidos pelo depósito de bebidas do Odair Sala, com o inconfundível logo da Companhia Antárctica.


Nas paredes o inconfundível relógio da Cachaça Velho Barreiro, chamativas propagandas em neon dos cigarros da Souza Cruz e Philips Morris, entre placas de aço da Coca Cola, Fanta Laranja e guaraná Brahma. Outro chamativo na época, era a facilidade da cerveja em lata, então comercialidade pela Skol.

O cardápio era diverso, opções não faltavam para todos os gostos, o cliente escolhia de uma gostosa porção de provolone à milanesa com filé, calabresa acebolada, peixes e frios, aos enormes pratos feitos servidos no almoço e jantar. A padaria Santo Antonio, do Octacílio Padeiro, logo a frente, fornecia os pães especiais para o preparo dos lanches. 

Propaganda do Ranchão no semanário Jornal de Cosmópolis, edição de 1987

 O Ranchão inovava ao mudar o pão de baguete (pão francês comprido), ao montar os lanches no sistema americano, o pão de hambúrguer que conhecemos hoje, uma sensação na época.
Comida, bebida ao som de sucessos ao vivo
 

O tempero caseiro, tipo de mamãe da Usina Esther, os hamburguês feitos artesanalmente, a maestria do Toninho na chapa, assim como no preparo de “coquetéis” e batidas, combinavam perfeitamente com o principal chamariz do Ranchão: a música ao vivo.

Na concepção do espaço, o atrativo aos jovens era a música, apresentada por bandas, cantores e grupos vocais de Cosmópolis e região.

No palco projetado com destaque nos fundos, a acústica era amplificada em todo salão, as apresentações aconteciam de sexta à domingo. Sempre eclético, o palco recebia de artistas consagrados do Blues nacional, pop Rock, samba e sertanejo.
Mas com certeza, a maior alegria do Toninho eram os novos talentos, que tinham no Ranchão sua primeira oportunidade de mostrar sua música.


O fim do Ranchão
Durante quase 20 anos, a Lanchonete e Restaurante Ranchão, foi uma das principais referências cosmopolenses na região. Ponto de encontro de gerações, divertimento para jovens e famílias no fim de semana, local que aproximou casais e uniu corações, assim como a primeira oportunidade de emprego de muitos jovens.


O fim material, já que na memória sempre irá existir, aconteceu depois de um grande incêndio que destruí parcialmente as instalações no fim dos anos de 1990.

O declínio com o incêndio, as constantes crises financeiras brasileiras, fez o ponto comercial ser arrendado, Toninho deixava então a direção do Ranchão. As atividades do lendário Ranchão encerram anos depois.

Demolido no início dos anos de 2000, no local foram construídas pequenas lojas comerciais.
 
O incêndio que virou causo popular 
O fatídico dia trouxe enormes prejuízos ao empresário, mas também gerou um causo que entrou para história popular de Cosmópolis. Toninho, sempre bem humorado, recordava dando risada de um triste engano que aconteceu no dia.
A cidade por não possuir uma corporação de Bombeiros, o único atendimento emergencial no combate à incêndios era prestado voluntariamente pela Usina Ester (continua a mesma coisa há mais de 120 anos).

Ao ser acionada a ajuda na Usina, a pessoa aflita gritava no telefone que o Ranchão estava pegando fogo. Prontamente as equipes da Usina seguiram com destino ao Ranchão, mas não o restaurante, e sim a Colônia do Ranchão, distante quilômetros da sede industrial da Usina.

Em tempos que não existia celular, e muito menos telefone fixo em Colônia, o diretor recebeu os funcionários gritando: Pelo amor de Deus corre que é no Ranchão Restaurante na Avenida Ester, e não na Colônia do Ranchão da Usina. Nas idas e vindas, quando a equipe chegou no local, o Ranchão estava parcialmente consumido pelas chamas.

Adeus Toninho do Ranchão
Aos familiares e amigos, os meus sinceros sentimentos e está modesta homenagem póstuma.

O velho Toninho do Ranchão, tenham certeza fez sua parte, deixando importantes páginas em nossa história comercial, mas principalmente na vida de milhares de cosmopolenses.
Boêmio assumido, nunca teve medo de arriscar tudo que tinha em seus projetos, viveu intensamente sua passagem na terra.
Foi empreendedor, visionário, lutou com a vida para viver o seu modo de vida.
Deixou filhos, familiares, amores e muitos amigos, ficando aqui marcantes histórias que sempre serão perpetuadas em nossas lembranças.

Vai em paz Toninho do Ranchão, vários amigos já aguardam sua chegada no reino do Criador.

Fotos Acervo família Exel Leoni
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