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sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Há exatos 88 anos em Cosmópolis...

GUERRA PAULISTA 

Domingo, dia 18 de setembro de 1932

 Cosmópolis despertava apavorada na madruga de 18 de setembro de 1932.  Os sinos do campanário da igreja Matriz de Santa Gertrudes redobravam descompassados, mas, não era o chamado para a tradicional missa de domingo.  

Impaciente e trêmulo, o chefe da estação subia a caixa d’água de abastecimento dos trens da Sorocabana, conhecida “caixa preta”, localizada na atual Cooperativa Agrícola. No alto do reservatório, onde estava hasteada a bandeira paulista, ele incansavelmente girava a manivela da sirene. 

 Estridentes sirenes repetiam o chamado na Usina Ester, instaladas na gigantesca chaminé da indústria, o som acordava apavoradas as famílias dos colonos. Outras sirenes vibravam na mansidão, sons que ecoavam entre os imensos mares de canaviais e cafezais da região, eram as Villas de Arthur Nogueira, José Paulino e Americana. O santificado dia de domingo ficava marcado por sangue e pânico. 

Somente eram acionadas as sirenes, instaladas em pontos estratégicos, para alerta de perigo iminente aos moradores. O estado de São Paulo estava em guerra pela nova Constituição, a cidade de Campinas acabava de ser bombardeada.

Aviões inimigos sobrevoam as áreas relacionadas como centrais das tropas paulistas. Cosmópolis abrigava uma das maiores centrais de comando e inteligência, instalada no Sobrado da Usina Ester. 

O casarão foi cedido pela família Nogueira ( entre os principais responsáveis pela Revolução), aos comandantes paulistas, assim como o complexo industrial da Usina Ester, utilizado até nas produções de munições. 

As esquadrilhas de aviões do ditador Getúlio Vargas sobrevoavam os céus cosmopolenses, como de outras vilas campineiras. Para mostrar o poder do Ditador, as máquinas de guerra faziam rasantes na pequena “Villa”. O barulho dos motores aterrorizava a população.  

Uma bomba de impacto, fabricada com destroços  e ferros, atingia uma plantação no bairro Santo Antônio, abrindo uma clareira na plantação de algodão. Comandados pelo major-aviador Eduardo Gomes, chefe das forças armadas getulistas, os aviões voltavam de Campinas. Depois de espalhar o pânico nas populações das vilas, temendo o incerto, ataque aéreo, ou a invasão por terra.  


Bombardeiro em Campinas 

A Estação Central da Paulista, onde saiam e chegavam as tropas Constitucionalistas, foi o alvo principal dos aviões, os impopulares e temidos vermelhinhos. Estrategicamente, granadas eram arremessadas e gigantescas bombas “caíam”  dos aviões vermelhos de Getúlio. Casas e comércios foram devastados, inúmeros feridos, morria uma criança de nove anos, fatalmente vitimada pelas bombas. 

Era o jovem Aldo Chioratto, da Cruzada Escoteira Pró Constituição, atingido por treze estilhaços das granadas lançadas dos aviões. A tragédia somente não foi maior, centenas residiam na região central, porque os soldados paulistas revidaram bravamente, atirando contra os aviões. 

Das torres da Estação, os soldados disparavam as poucas munições que possuíam. Era noite, a escuridão dos céus camuflavam os aviões, os soldados paulistas “mirravam” seguindo os sons dos motores. Depois da operação feita, bombardeado o alvo campineiro, os aviões voavam  rumo à Minas Gerais. Em seu caminho, até a base getulista mineira, os barulhos dos motores traziam o pânico  nos céus das cidades que voavam.

Texto  Adriano da Rocha

Foto: Destaque do famoso mapa criado pelo mestre José Wasth Rodrigues, na foto a importância estratégica da cidade de Campinas e sua região na Revolução Constitucionalista de 1932.

#Acervo13anos #muitomaiscosmópolis #memóriade1932 #orgulhopaulista #cosmópolis #AcervoCosmopolense

terça-feira, 9 de julho de 2019

"REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA EM COSMÓPOLIS"


Muitos desconhecem o motivo do feriado, estabelecido há 10 anos no Estado, a grande maioria na verdade, nunca aprendeu sobre sua história nas escolas públicas
Cartões postais da Revolução de 1932 e condecorações de soldados paulistas. Objetos originais de época, pertencentes ao patrimônio de memorabilidade Paulista do Acervo Cosmopolense

  Em 2019, são relembrados os 87 anos da “Revolução Constitucionalista de 1932”, movimento popular que exigia a elaboração de uma nova constituição nacional, e a redemocratização do governo, então comandado pelo ditador Getúlio Vargas. Não foi um movimento separatista, como erroneamente foi divulgado pelo regime Vargas, mas sim, pela liberdade e direitos de todo o povo brasileiro.

Foi a maior revolução popular armada, unindo classes sociais e partidos, da história brasileira. Único notório levante nacional contra um ditador e seu regime, instituído por golpe militar, em 1930. São algumas das respeitáveis marcas da “Revolução Constitucionalista de 1932”, celebrada sua memória neste feriado estadual de 9 de julho.

Mapa da Revolução , obra de José Wash Rodrigues. Destaque no brasão dos pavilhões para Campinas , ao lado de Santos e São Paulo, como principais bases do movimento constitucionalista

Nos quase seis meses de conflitos, uma verdadeira guerra entre brasileiros, somariam mais de 2 mil mortos. Cessando somente, devido ao esgotamento das tropas paulistas, atenuadas pela escassez de munições e condições de saúde dos soldados. São Paulo combateu sozinho, devido a desistência dos estados como Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso, a "guerra paulista pela constituição" foi encerrada em 2 de outubro de 1932, com a rendição do exército paulista. Um acordo realizado com Getúlio Vargas, garantindo as vidas dos soldados e retaliações ao Estado.

Uma data com extraordinária importância histórica, responsável pela garantia de vários direitos na criação da nova constituição em 1934. Nesta constituição, foram instituídos o voto feminino e igualdade de direitos entre homens e mulheres, criação da carteira profissional e direitos trabalhistas, obrigatoriedade e gratuidade do ensino, sendo o ensino religioso facultativo, respeitando a crença do aluno; proibição do trabalho e exploração infantil; princípio da igualdade perante a lei, entre inúmeras garantias, pleiteadas pelo movimento constitucionalista.

Relembrando a importância de Cosmópolis na Revolução de 1932, resgatamos histórias do movimento constitucionalista nas terras cosmopolenses. No período, a “Villa Cosmópolis”, então um dos distritos pertencentes ao território do município de Campinas.

TRINCHEIRAS E CRIANÇAS 
1982/ Região onde existiam as trincheiras no Morro Castanho. Em destaque funcionários da prefeitura de Cosmópolis, limpando os terrenos para o processo de ampliação da atual vicinal prefeito Oswaldo Heitor Nallin, acesso à Limeira e Artur Nogueira

A região das atuais praças "Major Arthur Nogueira" e "Estudantes", popular "Coreto" e "Praça do Relógio do Sol", foram protegidas por trincheiras nas ruas Baronesa Geraldo de Rezende e Campinas. A razão, era a Estação de trens da Sorocabana, e os desvios das linhas de acesso à Campinas, então localizados naquele ponto. As trincheiras protegiam os acessos férreos de uma possível invasão “Getulista”, e garantiam a proteção da população.

Em pontos estratégicos, foram criadas grandes trincheiras e bases de monitoramento, como no “Morro Castanho” (acesso para Limeira, Americana e Piracicaba), “Morro Amarelo” (acesso para Campinas, principal base dos comandos), e Morro do Schwartz (região do Sucão, acesso para Artur Nogueira, Mogi Mirim e sul de Minas).

2016/ Morro Amarelo, região conhecida como "Caminho da Onça", onde foram criadas as trincheiras para proteção dos acessos por Campinas

Um fato interessante, eram os soldados que faziam as vigias, crianças como os meninos Poério Tavano, Custódio da Rocha, Manuel da Rocha, Hugo Taboga, entre outros saudosos cosmopolenses.

Sem munições, as armas e balas foram doadas pela população aos soldados, os meninos passavam os dias afiando facões e lâminas de baionetas, as quais eram entregues as tropas.

Caso houvesse os avanços Getúlistas, avistadas nestes pontos, os meninos avisavam os comandos das tropas paulistas, localizado no Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado da Usina Ester.

Para amedrontar as tropas Getúlistas, os meninos eram munidos de matracas, um instrumento confeccionado de madeira, o qual emitia um som semelhante aos disparos de metralhadoras. As matracas cosmopolenses, segundo Poério, eram fabricadas pelo mestre Antônio Tavano, marceneiro e maestro da Corporação Musical.

FÁBRICA DE PÓLVORA E MUNIÇÕES
2016/ Morro Amarelo, região conhecida como "Caminho da Onça", onde foram criadas as trincheiras para proteção dos acessos por Campinas
 
Um dos grupos de inteligência das tropas paulistas, seguindo um projeto de Paulo Nogueira Filho (Paulito), analisava fabricar pólvora e munições na Usina Ester. As munições seriam confeccionadas nos maquinários do complexo industrial, utilizado como uma fundição, e próximo ao Rio Jaguari, a fabricação da pólvora.

A localização, os mais de 40 quilômetros de trilhos que passavam pelas terras da Fazenda Usina Ester e Cosmópolis, facilitariam o transporte e envio de munições para as grandes bases do movimento, principalmente as tropas paulistas nas divisas com Minas Gerais.

A notícia do bombardeio de uma fábrica de pólvora em Lorena, alarmava os proprietários da Usina Ester. Os bombardeiros realizados pelos “vermelhinhos de Getúlio”, apelido paulista aos aviões da força aérea comandada pelo ditador, deixaram vários feridos e mortos na cidade, e uma gigantesca cratera gerada pela explosão dos estoques de pólvora da fábrica.

Temendo um bombardeiro, e sobretudo, prezando pelas vidas dos moradores das colônias, centenas de casas existiam próximas da Usina, Paulo de Almeida Nogueira proibiu a continuidade do projeto.

Os testes aconteciam na região do “Poção”, próximo da antiga ponte férrea sobre o rio Jaguari, neste ponto, os soldados fabricavam o carvão vegetal, utilizado como princípio da pólvora negra. As experiências na fabricação de pólvora naquele ponto, apelidaram as margens da extinta ponte como “Queima chão”.

SEDE DOS COMANDOS E INTELIGÊNCIA
2011/ Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado, momentos antes da sua demolição. Em destaque, na parte superior, o mirante do Major, área reservada para monitoramento pelas tropas paulistas

O extinto Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado da Usina Ester, foi utilizado como base de chefias na Revolução. Altas patentes militares, chefes de inteligência e estratégica militar, criaram uma central de comandos e supervisão da região.

Construído nos anos de 1900, junto com a velha Igreja Matriz de Santa Gertrudes e o Mercadão de Campinas, a edificação foi projetada pelo renomado arquiteto Ramos de Azevedo, sendo as obras supervisionadas pelo jovem Dumont Villares, sobrinho do celebre inventor Santos Dumont.

O Sobrado foi edificado em local estratégico na Fazenda Usina Ester, atendendo as exigências do Major Arthur Nogueira Ferraz, estabelecido em um ponto onde os irmãos poderiam visualizar todas as terras e empreendimentos da família.

Na parte superior do Sobrado, inspirado em uma edificação suíça, era possível ver toda região através de um cômodo especialmente projetado por Ramos de Azevedo.

Neste ponto do Sobrado, conhecido como mirante do Major, visualizava-se as cidades de Campinas, Americana, Limeira, e as “villas” de Arthur Nogueira, José Paulino (atual Paulínia), e toda Cosmópolis.
2011/ Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado, momentos antes da sua demolição. Área interna do mirante do Major, reservada para monitoramento pelas tropas paulistas. Neste espaço, com múltiplas janelas, os comandantes podiam observar toda região


Outra razão importante na escolha do Sobrado, era a privilegiada visão das linhas férreas que “cortavam” a região, assim como os horizontes mineiros, sendo crucial para os comandos no caso de possíveis invasões das tropas Getúlistas.

Mais um quesito importante, eram os sistemas de eletricidade, telefones e telégrafos do Sobrado. Assim como todo o complexo industrial da Usina, o Sobrado possuía distribuição de energia elétrica gerada na própria fazenda, através da hidroelétrica do Paredão.
Sendo impossível os cortes no fornecimento, derrubada de postes por tropas inimigas, devido ao sistema de distribuição transmitido por cabos subterrâneos.

2011/ Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado, momentos antes da sua demolição. Em destaque, um dos acessos as janelas com visão para aérea norte 


PONTOS DE ARRECADAÇÃO DE OURO E PRATA
Para financiar os custos com alimentos, uniformes, e principalmente materiais de guerra, como capacetes, armas e munições, o Movimento Constitucionalista criou a campanha “Ouro para o bem de São Paulo”.

A população doava os objetos de ouro e prata em determinados pontos, criados e comandados pelas tropas constitucionalistas, recebendo como prova e gratidão ao apoio, um diploma de reconhecimento. Os casais que doavam joias como alianças de casamento e noivado, recebiam uma aliança de ferro, com a marca do movimento.

Em Cosmópolis, a campanha era organizada pelo casal Paulo de Almeida Nogueira e Esther Coutinho Nogueira, proprietários da Usina Ester. Os pontos de coleta eram o Sobrado e a Estação da Sorocabana.

Devido a idoneidade e respeito da família Nogueira, todas as classes sociais da região participaram. Nas centrais de doações, criadas pelos Nogueiras, também eram realizados as confecções de uniformes e reformas, entrega de alimentos e suplementos, cuidados médicos, e bases postais para comunicação com as famílias e comandos.

Esther Nogueira, doou todos os objetos de ouro e prata da Usina, sendo dela a frase: “Meu bem mais precioso não será ouro e prata, mas a doação dos meus filhos ao estado de São Paulo”.

José Paulino Nogueira Netto e Paulo de Almeida Nogueira Filho, estiveram entre os principais líderes do movimento, sendo Paulo Filho, o Paulito, um dos mais atuantes da Revolução.

Paulito, esteve à frente dos financiamentos das tropas, sendo responsável pelas articulações em todos os setores. São de sua autoria importantes livros e publicações sobre o período, em sua gestão como deputado, foi um dos idealizadores da oficialização de monumentos e referências estaduais em memória aos combatentes.

Na Argentina, foi em viagem secreta para as compras de munições, buscando o apoio de Agustín Pedro Justo Rolón, então presidente da Argentina. Traído pelo governo argentino, o qual temia as retaliações de Getúlio Vargas, Paulito e seu grupo foram detidos. Impossibilitando as tropas paulistas do recebimento dos armamentos e ajuda dos compatriotas argentinos.

No contrário, a Revolução poderia ter outros rumos, quem sabe até, conseguindo seu principal objetivo, a nova constituição no vigente ano ....
Continua...

Texto Adriano da Rocha
Fotos Acervo Grupo Filhos da Terra, João Paulo Pexe , Eduardo Ketelhuth

quarta-feira, 9 de julho de 2014

REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932 EM COSMÓPOLIS

A nossa história esquecida, nossas glórias aqui lembradas, nesta data pouco conhecida na sua real importância, em ser decretado feriado. A quem ler estás tantas linhas, obrigado por assim continuarem nossa história

  
 Hoje 9 de Julho, feriado em memória a “Revolução Constitucionalista de 1932”. Na data de hoje, são completados 82 anos deste levante,  a maior revolta armada da história republicana brasileira. Revolução que durou 4 meses (de julho à outubro), vitimando mais de  mil mortos nos campos de batalhas e cidades, entre soldados e populares.

 Um dos momentos mais tristes da história de Cosmópolis, e de nossa região, se passaram neste período. Cidades cercadas por trincheiras, aviões do governo sobrevoando as cidades e realizando bombardeiros em   possíveis inimigos, a escassez de alimentos básicos,como arroz, feijão e farinha de trigo, e no final com a derrota das tropas Paulistas, a invasão das cidades pelas “tropas Getúlistas”, ou federalistas como eram chamados.


Cosmópolis estava bem no centro dos maiores levantes e fronts de soldados constitucionalistas, a proximidade com o estado de Minas Gerais e os acessos às cidades de Limeira, Campinas, Piracicaba, Itapira e Mogi Mirim, e os vários caminhos que cortavam as terras cosmopolenses, tornavam Cosmópolis e também Artur Nogueira, como cidades alvos dos inimigos.


Destaque do famoso mapa criado pelo mestre Jose Wasth Rodrigues, na  foto a importância estratégica  da cidade de Campinas e sua região na revolução constitucionalista. 

   Os acessos as cidades, eram feitos pelas linhas da antiga Funilense, tornando-se  obrigatório à passagem por Cosmópolis e Artur Nogueira, na época distritos de Campinas e Mogi Mirim, as duas cidades bases do movimento no estado. 


Cosmópolis foi cercada por inúmeras trincheiras, destacando as da região da estação ferroviária da Companhia Sorocabana, na Rua Baronesa Geraldo de Rezende, que protegiam os acessos à estação de uma possível invasão inimiga. 

 Outras grandes trincheiras existiam próximas da Usina Ester, onde no Palacete Irmãos Nogueira (Sobrado), residia  uma parte dos altos comandos da revolução. O palacete neste período hospedou generais, coronéis e importantes comandantes do exercito revolucionário constitucionalista. Sendo Paulo de Almeida Nogueira Filho, um dos proprietários da Usina, o principal interlocutor junto as forças constitucionalistas da Capital.

   Outras trincheiras de destaque,  foram construídas próximas às pontes da cidade, a antiga ponte sobre o Rio Pirapitingui (região hoje próxima ao pedágio) foi uma das mais significativas. Em uma possível invasão das tropas getulistas, as ordens dos comandos Paulistas era da explosão de todas as pontes, impedindo assim o acesso à Cosmópolis e demais cidades.

 A ordem chegou a ser dada, quando as tropas Paulistas fizeram sua rendição, porém, no estado de medo que a cidade foi tomada, e a saída estratégica dos regimentos  Paulistas, faltou soldados para cumprir o mandado. Os artefatos de dinamite, distribuídos nos pilares das pontes, foram desativados meses depois, por funcionários da Usina Esther.



Soldados Paulistas em uma trincheira na região de Pedreira-SP


   Outras duas grandes trincheiras, também existiam nos pontos mais altos e estratégicos da Vila de Cosmópolis, o Morro Castanho e o Morro do Schwarz, saídas para Limeira e Artur Nogueira, e possíveis acessos das tropas inimigas. 


A população do estado de São Paulo uniu-se  por um ideal comum, o fim da ditadura militar  de Getúlio Vargas. O povo aderia à causa, e cada um fazia sua parte, honrando sua terra, seu estado, seu País.


Na famosa “Campanha do Ouro”, em que a população doava bens de valor  as tropas, para ajudar o movimento na compra de munição, muitos cosmopolenses que apenas tinham como bem de valor as alianças de casamento ou um relógio de prata, doavam  na campanha seus únicos e valiosos bens. 

Um dos proprietários da Usina Ester, Paulo de Almeida Nogueira, escreveu em seu livro diário sobre a Revolução: “O ouro que tínhamos foi todo doado, de moedas a cigarreiras. Mas o maior foi nosso filho Paulito (filho de Paulo e dona Esther Nogueira), com muito orgulho é o ouro de maior valia que saiu de minha casa”.



Certificado dado pela Campanha do ouro aos voluntários.

   A parte mais triste desta história de lutas, foi à invasão das tropas Getulistas em Cosmópolis, assim como também em todas as cidades que apoiaram a causa. 


 Cosmópolis por ser distrito de Campinas, cidade que mais apoiou e divulgou à revolução, foi uma das mais afetadas no período de rendição das tropas revolucionarias. A chegada das tropas Getulistas, em Cosmópolis, foi um dos momentos mais tristes da história do município. Centenas de soldados adentraram a cidade por diversos pontos,  cercando e prendendo os soldados inimigos. Denúncias garantiam as tropas getulistas da presença de altos comandantes, escondidos entre a população.

   Pelas leis de guerra, existe o “espolio de guerra” ou “despojos de guerra”, em que o lado vencedor pode tomar posse de bens do lado perdedor. Brasileiros contra brasileiros, já é uma grande fatalidade e o maior de todos os absurdos, a invasão de uma cidade e o saque em nome de uma batalha vencida ainda pior.


O menino Aldo Chioratto, campineiro, morto em um bombardeiro no centro de Campinas. Escoteiro e mensageiro do Exército Constitucionalista faleceu no exercício de suas funções, deixando um legado de inocência, coragem e civismo.Retrato do Menino Aldo Chioratto localizado na entrada principal do Colégio Orozimbo Maia, homenagem exposta no colégio a mais de 80 anos em homenagem ao valente aluno. Foto e texto 

 Cabo Antonio Carlos Soares

  Os comércios que não queriam ter suas mercadorias saqueadas pelos soldados, tentavam colocar panos na cor preta nas janelas e portas, ou, o retrato do ditador Getúlio Vargas, algo  quase impossível de se achar na cidade, sendo ele o inimigo maior da revolução Paulista. Quem tinha sua foto neste período queimou ou rasgou. 

Uma das cenas mais tristes,  aconteceu nos armazéns próximos à estação Sorocabana, produtos eram jogados pela Rua João Aranha e Avenida Ester, na época ruas de terra e pisoteados pelas tropas. Sacos de arroz, feijão, farinha e demais cereais, eram misturados com a terra da rua e inutilizados pelos soldados.

  Alguns proprietários imploravam por misericórdia, mas de nada adiantava, quem era visado como revolucionário, ou por ter ajudado as tropas Paulistas, tinham seus bens todos destruídos e saqueados. 

Uma cena que ficou marcada na memória do cosmopolense Custódio da Rocha, hoje com 104 anos de idade, foi a dos comerciantes e moradores peneirando o chão da Rua João Aranha, para tentar salvar alguma coisa: 

“Era triste ver gente que antes tinha a tuia cheia, “campiando” grãos de feijão e arroz na rua da estação. Os soldados do Getúlio, eram tão malditos, que até a igreja de Santa Gertrudes tentaram invadir,  só não invadiram por que o padre barrou a entrada, apelando para excomunhão. Minha família ajudou na revolução, até soldados saíram da nossa casa. Mas não por medo tivemos que sair, mais sim por amor à nossa vida, e como íamos sem armas, só no facão enfrentar aquele monte de soldado!!”.

  A situação chegou ao ponto que algumas famílias de soldados Paulistas, ficaram escondidas até dentro de poços desativados, passando semanas na base de bananas para sobreviver. 


A perseguição, aconteceu  por que houve alguns delatores, até hoje não descobertos, fazendo serviços de espiões dentro das cidades, ou seja, entregavam moradores da própria cidade ao governo.

   Com os nomes “inimigos”, na invasão da cidade, as tropas iam de encontro às famílias e soldados delatados pela corja de espiões. Hoje, infelizmente não existem quase nada de material do período da revolução em Cosmópolis. A falta de material desta época, acontece por que muitos registros foram destruídos pelas tropas Getúlistas, fotógrafos da cidade que acompanhavam o movimento Paulista, tiveram todos os seus filmes queimados, e por sorte não perderam suas caríssimas maquinas fotográficas para os soldados.


Um período pouco conhecido pelos cosmopolenses, mas que ficou marcado na história de vida de muitos moradores. Dados não lembrados,ou omitidos, por grande parte dos “historiadores” da cidade.


Abacaxis Paulistas, apelido usado pelos soldados as granadas.


   Uma curiosidade e até um absurdo na visão de muitos cosmopolenses, em grande parte das cidades Paulistas, não existe uma rua com o nome Getúlio Vargas. Cidades como, a capital São Paulo, Campinas, Piracicaba e até nossa vizinha  Artur Nogueira, que também sofreu muito neste período e não se esqueceu do algoz de sua história, não possuem ruas e praças com denominação ao ditador.

   Em Cosmópolis, a Rua Getúlio Vargas, surgiu pelo seguinte motivo, nossa cidade então  distrito de Campinas, sonhava em se emancipar, em um jogo político do governo Getúlio, para prejudicar Campinas, Cosmópolis foi emancipada. 


O governo Getúlio para dar um troco, digamos assim, à velha resistência campineira, deu uma forcinha ao movimento emancipalista cosmopolense, e o distrito tornava-se enfim cidade.



Prédio destruído por  um dos vários bombardeio aéreos das tropas Getulistas em Campinas.

   
  Nesta jogada política, Cosmópolis perdeu uma boa parte de seu território, a grande vila de antes com divisas que ultrapassavam as atuais fronteiras, se resumiu no território que conhecemos hoje. A história dos tempos da revolução foi esquecida praticamente,  sendo a única homenagem a está data a Rua 9 de Julho, criada no final da década 1950.



Monumento aos heróis da Revolução Constitucionalista de 1932, em frente ao Cemitério da Saudade, em Campinas-SP> Foto Jornal Correio Popular de Campinas.


    A rua denominada Getúlio Vargas, é o endereço onde estão instalados à Câmara
Municipal de Vereadores, e por incrível que pareça, o batalhão da Policia Militar,  entre as corporações que mais lutaram contra o personagem desta rua.


  A lei que decreta feriado em 9 de Julho, surgiu em 1997, sancionada  pelo então governador Mário Covas. Justa homenagem aos soldados, às famílias e a memória do povo Paulista. 

Infelizmente histórias de uma data esquecida, por grande parte da população, que só é lembrada por ser feriado estadual ..


Batalhão de soldados Constitucionalistas comandados pelo Coronel Chico Vieira, em pose fotográfica na estação Barão Ataliba Nogueira em Itapira-SP, momentos antes do embarque para as fronteiras Paulistas com Minas. Famoso batalhão revolucionário que em sua passagem obrigatória pelos ramais ferroviárias de Cosmópolis e Artur Nogueira, ficaram agrupados para o recebimento de ordens militares no “Palacete Irmãos Nogueira na Usina Ester”. Local onde estrategicamente os principais comandantes do movimento constitucionalista ficavam hospedados. Do Palacete construído no ponto mais alto da Usina, existia em seu terceiro andar uma vista privilegiada da região, e principalmente das linhas férreas das Cia Sorocabana, Mogiana e Paulista
Mapa do estado de São Paulo retratando as frentes de batalha espalhadas pelo estado. Uma das obras mais simbólicas  de autoria do mestre Jose Wasth Rodrigues.


    Antes da ocorrência de comentários de “pseudos historiadores, acomodados da ignorância documental e histórica, e os analfabetos funcionais, “intelectuais” do copia e cola, fica um esclarecimento deste que vos escreve,e com muito orgulho tem em sua ascendência seis soldados constitucionalistas. 

A “Revolução Constitucionalista de 1932” não foi uma tentativa de golpe para a separação de São Paulo do Brasil, não foi uma revolução da burguesia cafeeira contrariada (coronéis do café com leite), e muito menos uma jogada política para manipular e controlar o povo.


A revolução de 1932 foi a maior manifestação da união popular da história brasileira, aderida inicialmente por 4 estados,São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Mato Grosso (neste período não dividido), contra a pior de todas as ditaduras militares instaurada no Brasil, a ditadura Vargas. 

 Instaurada no Brasil no final da década de 1920, foi o golpe militar que estabeleceu Getúlio Vargas como “presidente”, ou na verdade ditador, um Mussolini brasileiro, que só não ficou definitivamente no poder, devido à intervenção americana, depois da IIª Guerra Mundial.



   São Paulo, foi o único estado que permaneceu nesta batalha pela liberdade e a volta da democracia no país, uma revolução de populares pela criação de uma nova constituição, de um Brasil sem freios ou cabrestos em seus filhos. 


A Constituição diminuiria os poderes do presidente militar,  estabelecendo, a autonomia ao povo em seu país. Autonomia estabelecida perante leis e deveres desta nova constituição. O Getúlio Vargas conhecido como “Pai dos pobres”, criador da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), o defensor dos trabalhadores e fundador da Petrobras, foi uma imagem criada para ludibriar o próprio povo, artimanhas de antigos políticos, que iguais aos “marketeiros” famigerados na atualidade, criaram mitos populares como Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma.

   A imagem do Getúlio, "pai do dos pobres", foi uma das maiores "ludibriações" de nossa história política, ou como diz o caipira Paulista:" um jeito de colocar o cabresto sem o burro perceber,” adomado” o burro, ele faz tudo que o dono mandar". 


A criação da CLT, o regime instaurado em seu governo, são cópias fieis das ideologias criadas pelo ídolo maior de Getúlio, o “Duce” Benito Mussolini, um dos fundadores do regime Fascista, segundo braço do Nazismo.

Na Itália, o Fascismo de Mussolini, no Brasil o Integralismo de Getúlio e sua turminha do “Anaué”; no Fascismo a carta de Lavoro, no integralismo getúlista, a CLT. Muitas semelhanças com o Duce não é!!


Uma lista imensa na verdade, as quais merecem seus mais profundos estudos antes de criar uma defesa na base do copia e cola, para na mais louca insanidade e incoerência mental, tentar argumentar a favor do pior ditador de nossa história, o senhor Getúlio Dorneles Vargas.
 

Ah Paulista sabichão e por que comemorar um feriado de uma guerra perdida, tantos mortos, um ideal esquecido e hoje apenas um mostro (Getúlio) é lembrado como “O pai dos trabalhadores brasileiros”. Seu feriado ow Paulista não tem fundamento então...

   Tem sim, e o mais nobre de todos. Assim como os irmãos Gaúchos e Catarinas celebram seus mártires da Revolução Farroupilha; ou como os Baianos celebram e cultuam a Conjuração Baiana e a revolta independentista; os Mineiros a Inconfidência Mineira de Tiradentes; os Pernambucanos sua Revolução Praieira; no Maranhão a Balaiada; a Chibata no Rio de Janeiro... 


Entre tantas revoluções e guerras brasileiras, todas batalhas perdidas nas trincheiras, mas lembradas por suas glórias em cada estado, pela importância incontestável da união popular por seus direitos.  Não esquecendo que nestas datas é feriado estadual em todos estes estados acima citados.


Cartão postal vendido para a arrecadação de fundos na campanha  para a construção do monumento a Revolução de 9 de Julho e mausoléu dos soldados . Acervo  Blog Tudo por São Paulo.

  A “nossa” data, o nosso feriado de glória, somente foi vigorado no estado “que não pode parar” nem para eternizar a história do seu povo, somente em 1997, ou seja 65 anos de esquecimento e descaso com a memória do povo Paulista. O nosso feriado deve e tem que ser respeitado, lembrado, glorificado, enaltecido.
  

  Não somente por ser a maior revolta popular armada da história brasileira, não somente pelos milhares de mortos em batalha e tragicamente nos bombardeiros getulistas nas cidades (Campinas e São Paulo foram vários mortos), pelos mártires do M.M.D. C (iniciais dos jovens Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo), pelas batalhas vencidas pelos jovens heróis paulistas, pela glória da criação de nossa nova constituição instaurada em 1934 graças às lutas da revolução... 

Tantos são os motivos de nosso feriado, não apenas para o estado de São Paulo, mas principalmente, ao povo brasileiro. O motivo maior deste feriado, desconhecido por seu povo, é a união de seus filhos no passado por um Brasil melhor.


Cartão-postal em homenagem ao MMDC, com as inscrições em latim: Dulce et decorum est pro patria mori (“é doce e honrado morrer pela pátria”), Pro brasilia fiant eximia (“pelo Brasil faça-se o melhor” ), Non ducor, duco (“não sou conduzido, conduzo”) e In Hoc Signo Vinces ("Com este sinal vencerás").

   A união Paulista de imigrantes de diversos países, de migrantes de todo o Brasil, de ricos e pobres, de um povo lutando juntos por um só ideal, pela nossa liberdade de escolhas, deveres e a principal de todas as leis estabelecidas pela constituição: "os limites do “poder” sobre o povo das autoridades políticas, e sua real e verdadeira função como político, representar o povo e nunca sua classe política".
   Foram estes nossos ideais, assim foi à luta do povo Paulista, embora “traído” pelos desertores de outros estados, seu povo lutou sozinho por este ideal, um Brasil para os brasileiros, e não um Brasil para os políticos brasileiros. 


Salves, vivas, glórias ao 9 de Julho, assim com muito orgulho desta história enalteço este dia. Encero com três símbolos maiores da Revolução de 1932, lemas, temas, inscrições que cada soldado seguia como seu brado retumbante, seu ideal mor: 

Dulce et decorum est pro patria mori (“é doce e honrado morrer pela pátria”), Pro brasilia fiant eximia (“pelo Brasil faça-se o melhor”), Non ducor, duco (“não sou conduzido, conduzo”).



  Viva São Paulo e nosso 9 de Julho. Viva o Brasil nosso chão, nossa terra, nosso povo.

Que estes mesmos ideais com a graça de Deus iluminem nosso povo por um país novamente brasileiro, e não politiqueiro. Avante Brasileiros nossa nova revolução tem inicio nesta próxima semana com o “período eleitoral”, façamos uma revolução nas urnas pela volta de nosso país aos seus filhos. 

Na casa da mãe o bastardos sejam expulsos, a mãe agonizante já não tem sustento para tantas bocas em suas tetas. O leite seca para o filho magro, pobre ele reclama de fome, enquanto o bastardo engorda com o farto leite de sua mãe.

Façamos de nossas derrotas a arma para vencer a breve guerra por um Brasil verdadeiramente justo e digno para todos.

Texto Adriano da Rocha
Originalmente publicado no Face em 2012, reescrito em 09/07/ 2014

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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

65 anos da 1º eleição municipal de Cosmópolis

Em 9 de Novembro de 1947 acontecia a primeira eleição municipal da cidade de  Cosmópolis

Texto Adriano da Rocha
Dr João Guilherme Paz Hermann, primeiro prefeito eleito de Cosmópolis.
  Há exatos 65 anos, em 9 de Novembro de 1947, acontecia a primeira eleição municipal direta de Cosmópolis. Nesta data não apenas em Cosmópolis, mas em todo o território brasileiro depois de 17 anos de ditadura (Getúlio Vargas), o povo poderia enfim escolher seus representantes.

Cosmópolis havia se emancipado de Campinas em 1944, e desde então, a nova cidade era administrada pela "Junta popular emancipadora", formada por representantes da antiga Vila de Cosmópolis, responsáveis pela emancipação da vila à cidade.

Os prefeitos desde 1944, eram escolhidos por essa "junta emancipadora", uma comissão de homens de bem (como se dizia na época) sobe a autorização do governo do estado de São Paulo para eleger os representantes da cidade junto ao governo, em votação realizada entre os membros da comissão, com participação na votação do representante da igreja Católica no município, na época a maior autoridade dentro da cidade ao lado do prefeito e delegado.

O prefeito escolhido administrava a cidade no período de um ano, sendo auxiliado por está mesma junta popular, que fazia o papel de vereadores dentro da administração. Neste período o único prefeito que representou  os moradores da vila e sítios, foi o primeiro prefeito oficial de Cosmópolis Dr Moacir do Amaral, primeiro a ser nomeado ao cargo pela junta popular, e um dos nomes de maior destaque na luta pela emancipação da Vila de Cosmópolis.

Durante seu mandato Dr Moacir do Amaral governou aos moradores de toda a nova cidade, contrariando muitas vezes os interesses da Usina Ester, empresa que desde o início da criação da Vila e seus núcleos coloniais, administrava Cosmópolis com auxilio dos intendentes de Campinas, na maioria familiares ou amigos dos donos da Usina.
1944...Junta emancipadora, alguns dos membros desta comissão responsável pela emancipação de Cosmópolis.
Sentados no centro da foto o Deputado Romeu de Campos Vergal e a seu lado Dr Moacir do Amaral.
 Doutor Moacir do Amaral, permaneceu no cargo de prefeito até Janeiro de 1945, um ano exato como era ordenado pelo governo federal em todo Brasil. Em 1945 começava então a "era" dos diretores da Usina Ester no governo da prefeitura de Cosmópolis, foram 4 nomeados diretamente pela Usina, e dois eleitos pelo voto das colonias da Usina Ester, na época onde se concentrava a maioria da população da nova  cidade. Com as mudanças no governo federal e saída de Getúlio Vargas, e posse do Marechal Eurico Gaspar Dutra, a constituição começou a ser mudada, com a nomeação em 1945, de uma Assembléia constituinte, elegendo Deputados e Senadores que seriam responsáveis pela criação de uma constituição democrática, com direitos iguais para todos, seria a volta da democracia no Brasil, abolida com o golpe militar do Estado Novo na década de 20. 

Em 1946 essa assembléia restabelecia a independência entre os poderes legislativos e executivo, os estados voltavam a ter sua autonomia e o povo os seus direitos individuais de cidadão, respeitados e garantidos pela constituição, era o fim da ditadura no Brasil. No período do governo do ditador Getúlio Vargas, os governantes estaduais e municipais, eram escolhidos diretamente pelo governo militar, as cidades e estados não tinham direito nem mesmo ao uso de bandeiras, a única bandeira que poderia existir no município e ser exaltada era a do Brasil.  Neste período foi criado também pelo ditador Getúlio Vargas, a lei de censura em todos os meios de comunicação, até circos eram controlados pelas leis de censura. Um período pouco lembrado em nossa história, que foi até mais cruel e opressor em vários setores que o período do golpe militar de 1964.

 Em 1947, começava o período eleitoral municipal em todo Brasil, em Cosmópolis era inaugurado um novo partido politico o PSD - Partido Social Democrata- presidido pelo ex prefeito Moacir do Amaral, e  possível candidato a prefeito nas eleições de 1947. O PSP -Partido Social Progressista- que trazia em seus correlegionários tradicionalistas do antigo PRP- Partido Republicano Paulista-, (partido extinto depois da Revolução Constitucionalista de 1932) era maioria em Cosmópolis, e depois de vários acordos entre os partidos PSP e PSD, apenas uma legenda concorreu na primeira eleição municipal de Cosmópolis, o PSP, trazendo como prefeito o então gerente químico da Usina Ester, Dr João Guilherme Paz Hermann.

O partido PSP, tinha como seus fundadores vários membros da família Nogueira, donos da Usina Ester, sendo o símbolo maior do partido o governador do estado de São Paulo, Ademar de Barros. A união dos partidos e escolha de Dr João Hermann como único candidato a prefeito naquela eleição, foi um ''pedido" feito pelo Dr Guilherminho ( Guilherme Pompeu Nogueira) diretor chefe da Usina Ester na época, o "pedido" na época foi visto como um controle da Usina na prefeitura e na primeira eleição do município. O candidato apoiado pela Usina iria disputar as eleições sozinho e sem vice, em nota oficial aos munícipes o PSD dizia que está união seria um meio de também unir toda a cidade para o progresso geral de Cosmópolis.

A verdade não era bem isso, e sim a continuação da Usina no governo do município   o que acontecia desde a criação de Cosmópolis em 1895, e somente foi mudado em 1956, com a eleição de um comerciante da vila como prefeito, José Garcia Rodrigues, o Zé da Pejê. Iniciando uma nova fase na cidade, de prefeitos eleitos sem a interferência da Usina, ou seja sem cargos dentro da administração da companhia.
Pin política do P.S.P, trazendo como símbolo a figura política do governador Ademar de Barros. (Foto MP Militária)
  O PSD desde sua fundação no inicio do ano de  1947, surgia como uma nova opção partidária  aos cosmopolenses, e uma independência da prefeitura de Cosmópolis da Usina Ester. O partido infelizmente não teve o apoio que precisava na cidade, não conseguindo vereadores suficientes para disputar as eleições e o incentivo do comércio, o PSD desistiu de concorrer as eleições naquele ano, sendo criada uma única legenda o PSP, no qual o presidente do partido Moacir do Amaral concorreu a vereador pelo PSP, praticamente extinguindo o PSD de Cosmópolis.

O candidato à prefeito na primeira eleição municipal de Cosmópolis por este motivo foi apenas um, Dr João Hermann concorrendo como único candidato a prefeito nas eleições e também sem vice prefeito. Cerca de 20 candidatos disputavam os 13 cargos de vereador, um número até alto de vagas de vereador em uma cidade com população estimada na época de 10 mil pessoas , a diferença daquela época aos dias de hoje que são 12 vereadores (início em  2013), é que os cargos de vereança não tinham salário, e praticamente eram exercidos por voluntários sociais, sem salário e sem nenhuma ajuda de custos.

OBS: Um número exato de moradores em Cosmópolis nem mesmo as fontes da época conseguem descrever com exatidão, devido a grande circulação de pessoas nas colônias da Usina e nas indústrias de tecelagem da cidade. Assim como nos dias de hoje acontece com os trabalhadores que trabalham em Paulínia e moram em Cosmópolis, naquela época acontecia o inverso, a cidade tinha mais opções de emprego que muitas cidades da região, migrando muitos trabalhadores das cidades vizinhas para trabalhar em Cosmópolis.

 Em 1947 Cosmópolis era a 34º zona eleitoral do estado, a votação acontecia no Domingo dia 9 de Novembro, com inicio às 8:00 hrs no Grupo Escolar de Cosmópolis na Rua Campos Salles.  Compareceram às urnas 918 eleitores, 74 eleitores votaram em branco e 09 anularam seus votos. Com 835 o único candidato a prefeito Dr João Hermann ganhou as eleições em Cosmópolis, assumindo o cargo em 1 de Janeiro de 1948, acompanhado dos seguintes vereadores:

Arno Kovalesky
Caetano Achiles Avancini
Diamantino Ribeiro
Dr Moacir Costa Couto
Dr Moacir do Amaral
Emilio Mengue
Francisco Fontinha do Nascimento
Leonel Rodrigues de Oliveira
Narciso Dario Andretto
10º Nelson Alves Aranha
11º Orlando Strazzacappa
12º Orlando Zanetti
13º Santo Rizzo

1948..Prefeitura Municipal de Cosmópolis e também sede da Câmara Municipal na época.
 Em futura postagem estaremos contando um pouco mais sobre a primeira administração eleita pela povo, e curiosidades deste período de nossa história como: a greve dos barbeiros; a criação do DAE e construção da caixa d'água da Rua Monte Castelo; uma cidade sem vice prefeito ; prefeito e chefe da Usina ao mesmo tempo...Tem muita coisa para gente relembrar, e muitas estórias e história para você conhecer. Aguardem.


Texto: Adriano da Rocha

Fotos: Acervo Cosmopolenses
Fontes: Biblioteca do Acervo Cosmopolense e  Instituto histórico eleitoral Brasileiro.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dia do professor

Aos mestres com carinho...
Texto Adriano da Rocha
Mão esquerda do professor Felício Marmo, homem de mãos pioneiras, e de uma história única na alfabetização no estado de São Paulo. O professor Felício Marmo, foi o fundador da primeira escola pública de Cosmópolis em 1905, aos 21 anos de idade. Abençoadas mãos que escreveram a história de muitos alunos no correr de suas vidas, e que até hoje ainda tem suas escritas vivas na história de muitos descendentes destes alunos

"Que saudades da professorinha que me ensinou o bê a bâ " ...

 Cantava Ataúlfo Alves na década de 1940, relembrando a primeira professora. Figura marcante na vida de uma pessoa alfabetizada, são das professorinhas e professores, as primeiras descobertas na vida de uma criança

 Um mundo novo sem fronteiras, um mundo apresentado  no dia a dia da sala de aula, e seus caminhos ensinados, através da  leitura aos alunos pelos professores.

Cosmópolis nos tempos dos caipiras e caboclos, antes da imigração de povos de diversos países do mundo, antes  até da Cia Funilense, Núcleo Colonial  Campos Salles, Nova Campinas, a alfabetização  era coisa rara  (em todo o Brasil na verdade).

  Na Cosmópolis  conhecida neste período por  Pinheirinho e Serra Velha, não era costume dos caipiras e caboclos, do Paulista interiorano na sua maioria, aprender a ler e escrever. Nascia-se para o trabalho, ou, como dizia um velho tio, caipira e pai de 15 filhos, nas suas palavras sobre a vida e o destino de cada vivente, ele simplificava a vida em 4 palavras :" Nascer, crescer, trabaiár e procriar".

Este tio, faleceu aos 95 anos, sem saber ler, porém, se considerava alfabetizado, por saber escrever seu nome completo. Na verdade, era mais um desenho que ele fazia no papel, e quando era questionado sobre sua alfabetização,  dizia no seu modo de capiá Paulista:

"Meu pai  sempre dézia, inscrivinhar o nome já basta. Inscrivinháno o nome pra assinar um documento tá bãoum demái, antis num percisava, hoje o homê tem que aprender. Tudo carece a tar da escrita, pra casar e comprar as coisa,tudo tem o nome  que inscrivinhá".

Isso ele dizia na década de 1980, se estivesse vivo nos dias de hoje, se surpreenderia como as coisas mudaram, e o saber é mais que uma necessidade, é uma questão de sobrevivência.

  Antes da imigração, e do surgimento da Vila de Cosmópolis, existiam diversas famílias de caboclos e caipiras, descendentes dos pioneiros Bandeirantes, famílias que já moravam a centenas de anos nesta região, nos atuais bairros ainda rurais, do Nova Campinas, Serra Velha, Itapavussú, e outros demais bairros da região destes bairros, que com o passar dos anos se tornaram um único bairro, como é o caso do Pinheiro e Terra queimada onde surgiu Cosmópolis, que hoje são basicamente conhecidos como Nova Campinas.

Em registros feitos por historiadores de Limeira, até o final do século 19, estes bairros rurais cosmopolenses por serem muito próximos de Limeira, eram atendidos pela vizinha cidade, ocorrências policiais, batizados, registros, sepultamentos,  tudo era realizado em Limeira pelas famílias.

Neste período de nossa história cosmopolense, a alfabetização das crianças era feita mensalmente por uma professora que vinha de Limeira, cortando as estradas de terra em  um velho trolinho, possivelmente essa professora era moradora do Bairro dos Pires ou Fazenda Quilombo, que faz divisa com as terras cosmopolenses, e na época eram basicamente um único território. 

   A professora a qual seu nome certo desconhecemos, sempre era lembrada em causos por moradores mais antigos destes bairros, e carinhosamente era chamada de Ínhana, (diminutivo Paulista de Ana), não era funcionária do governo, ou uma professora com formação acadêmica, possivelmente poderia ser uma filha de fazendeiros, sendo este um costume na época da sinhazinha ensinar os empregados da fazenda, por bom gosto e coração, ou para ajudar o pai a conseguir algum cargo de chefia pelo governo na região, como titulo de barão ou interventor do estado (titulo que representaria hoje os cargos de prefeito e governador).

Essa professora igual a muitas deste período, era uma jovem  que lecionava pelo amor de ensinar, e assim quem sabe melhorar a vida daquela gente que vivia tão distante da realidade, e ao mesmo tempo tão perto da cidade. Cidade essa Limeira, que crescia junto ao progresso dos novos tempos, através das plantações de laranja, o ouro laranja do estado, que disputava em valores com o famoso ouro verde, o café.

  As aulas eram realizadas em  uma capelinha que existia na região do Nova Campinas, na época o local era conhecido por "Bom Jesus da caninha verde" , poucos eram os alunos, como disse acima não era costume do Paulista o aprendizado de ler e escrever, já que o mesmo não servia de nada no serviço braçal na roça, e citando novamente um parente:

"Em mão calejada, pena não se usa". Dizendo assim, que em mão cheia de calos criados pelo trabalho com a enxada, essa mão  com a pena (caneta) não se escreve.

1895/ "Patria e dever" = Cartilha escolar do final do século 19, distribuída para os alunos dos bairros rurais de Cosmópolis, e também em outras diversas cidades  do estado de São Paulo pelo governo federal. O ano 1895, foi registrado pelo aluno Sebastião Manuel da Rocha em uma das páginas, mas o livro pode ser anterior a  data registrada.

 Com o surgimento da Cia Funilense em 1890, dos núcleos coloniais do Campos Salles e Nova Campinas, e assim nas margens da estação de trens a Vila de Cosmópolis, a primeira escola  de Cosmópolis, era criada pelos colonos Alemães e Suíços no núcleo colonial Campos Salles, a Deutsch Schule, em 18 de agostos de 1898 (oficialmente em 1898 era inaugurada a escola, mas desde 1896 os filhos dos colonos já eram alfabetizados em uma das casas do núcleo pelos próprios colonos). Surgia a escola, porém destinada somente para os colonos do núcleo, com aprendizado em alemão, sempre exaltando a pátria mãe dos imigrantes a Alemanha.


Tudo isso acontecia com o intuito de preservar a cultura e língua da terra dos imigrantes, os colonos na sua maioria não faziam questão de aprender sobre a nova terra, sua história e língua era a alemã, a vinda ao Brasil era vista como uma fase na vida de muitos deles, e que depois do enriquecimento em terras brasileiras eles voltariam novamente a Alemanha, e por isso não tinha a necessidade de se criar raízes no Brasil.


A escola somente mudou sua formação e conceitos depois da Revolução Constitucionalista de 1932, quando em 2 de Outubro de 1932 com a rendição das tropas Paulistas, o ditador Getúlio Vargas, mudou todas as normas de ensino no Brasil, o fim das bandeiras de estado e município, a obrigatoriedade de uma única bandeira, a bandeira do Brasil, e assim em todas as escolas coloniais e públicas, o Brasil era o assunto, língua e estudo.

1898/ Representantes da prefeitura de Campinas em visita a Deütsch Schule. A esquerda da foto recém chegado do estado de Santa Catarina, o professor Otto Herbest, que lecionou durante anos na escola, e foi um dos primeiros sub prefeitos de Cosmópolis
 O surgimento do núcleo colonial do Nova Campinas, na mesma época do Núcleo Campos Salles, o governo estadual construíu uma pequena escola para os colonos do bairro, edificada em madeira pelos próprios colonos, na divisa entre os antigos bairros do Pinheirinho e Santo Antônio, onde já existia uma pequena construção, uma capelinha dedicada ao Bom Jesus da caninha verde, como já foi mencionado no início da postagem, onde uma professorinha dava suas aulas mensalmente.

No núcleo Nova Campinas a maioria dos colonos eram oriundos de vários países, não exclusivamente da Suíça e Alemanha, como no Núcleo Colonial Campos Salles,  as aulas eram realizadas em português, e  ensinava-se o básico aos alunos, ler e escrever. Uma professora voluntária  mensalmente visitava a escolinha, como já era feito antes da imigração, aos caipiras e caboclos.

As crianças do Núcleo Nova Campinas, de origem Alemã, eram encaminhadas pelos pais a escola alemã do Campos Salles, embora alguns faziam questão que os filhos aprendessem o português na escolinha do Nova Campinas, e conhecessem melhor a língua da nova terra.

Eram poucos os alunos, tanto os imigrantes quanto os filhos dos antigos filhos da terra, não "compensava" ao governo pagar um professor oficial, que lecionasse semanalmente na região, por este motivo as aulas eram mensais e magistradas por professores voluntários, sem nenhuma remuneração ou obrigatoriedade, simplesmente ensinavam aos alunos pelo amor ao magistério, e difundir o saber ao próximo.
1903/ Professor Felício Marmo , primeiro professor oficial de Cosmópolis, e fundador da primeira escola pública da cidade. Foto tirada em Campinas pelo Studio Photografico Nickelsen & Ferreira, dois anos antes de  tomar posse na Vila de Cosmópolis como professor em 15 de março de 1905, aos 21 anos de idade.

   O crescimento da Vila de Cosmópolis, motivou o intendente (nome dado aos prefeitos eleitos diretamente pelo governador do estado, sem o voto popular) de Campinas Antônio Alvares Lobo, em  fevereiro 1904, a iniciar um concurso público para a contração de um professor para a Vila, neste concurso inscreveram-se apenas dois professores, sendo que somente um deles se apresentou no dia marcado pela banca examinadora, era o jovem recém formado Felício Marmo.

O jovem professor filho de imigrantes italianos da região de Salermo, a poucos anos se mudava para Campinas, vindo de Viamão-RS, cidade onde nascerá em 1 de Agosto de 1884.

A contração oficial do professor demorou quase um ano, somente no mandato como intendente de Campinas do famoso Doutor Mascarenhas (Francisco de Paula Mascarenhas, grande benfeitor da epidemia da febre Amarela que desolou toda região no final do século 19, e praticamente dizimou Campinas ), que o professor Felício Marmo se mudaria para Cosmópolis em 15 de Março de 1905, oficialmente Cosmópolis tinha um professor e uma escola pública.

Escola essa que inicialmente funcionou durante alguns meses em uma casa alugada no final da Avenida Ester, ao lado do antigo "Cine Teatro Avenida", de propriedade do comerciante Marcos Zanin, imigrante italiano que possuía um pequeno armazém naquela região.

1905/ Professor Felício Marmo entre sua turma de alunos, oficialmente a primeira escola pública de Cosmópolis. Abaixo o mesmo local da foto em 2012,  local onde funcionou a escola inicialmente em uma sala alugada pelo governo intendente de Campinas.
 A escola era totalmente improvisada naquele local, carteiras e quadro negro, não existiam, o governo somente enviou a vila o magistrado, o restante ficou por criatividade e iniciativa do jovem professor, na época com 21 anos. O professor Felício para a criação da sala de aula teve a ajuda dos comerciantes da vila, que do modo que podiam ajudavam. O professor recebeu  dos donos de armazéns de seco e molhados, caixas de madeira para a construção das mesas, caixas de banha da Cia Matarazzo e de bacalhau, grandes latas de 20 litros  de querosene eram usadas como cadeiras pelos jovens alunos.

O professor  residia em uma hospedagem próxima a estação da Cia Funilense, e dava aulas a tarde na sala de aula improvisada. Nas manhãs, o jovem professor era escriturário no armazém Grimaldi, naquele tempo as compras na sua maioria eram realizadas à prazo, ou como se fala popularmente no fiado, o serviço do professor era anotar as compras dos clientes, que pagavam mensalmente ou anualmente suas contas.

Nas noites, o professor lecionava aulas particulares para adultos, na própria residência do aluno,  a maioria   filhas de comerciantes que não tinham condições de estudar em Campinas, e o costume e ordem dos pais que aprendessem  apenas o básico para ler a bíblia e acompanhar o livro missal nas missas católicas.

  A escola somente se tornou realidade com a insistência do professor em melhorar as condições de aprendizado dos alunos, o governo lhe pagava o salário e o aluguel do salão, oferecia aos alunos apenas a cartilha de aprendizado Thomas Galhardo, os demais materiais usados no dia a dia escolar, eram comprados pelos alunos. Materiais comprados a duras penas pelos pais, na sua maioria pobres trabalhadores da vila, sitiantes, e funcionários da Funilense.

Não se usava muitos materiais escolares no dia a dia sa sala de aula naquele tempo, mas um simples lápis e um caderno eram materiais de um preço bem elevado para as condições financeiras das famílias dos alunos.

  
1907/ Cartilha de aprendizado Thomaz Galhardo

     Foi então que o professor percebeu uma disputa pessoal de duas figuras importantes da vila, o Major Artur Nogueira e o fazendeiro João de Barros Aranha, a disputa na verdade era de brios, daquele que tinha mais condições financeiras e poder.

O Major Artur Nogueira, era dono da Cia Agrícola Nogueira, que inciou o povoamento da região, fez o loteamento dos núcleos, companhia essa dona da Usina Ester e da Cia de trens Funilense, do outro lado o fazendeiro abastado João de Barros Aranha, dono da fazenda Itapuvusú uma das maiores produtoras de café da região, e dono de inúmeras outras propriedades pelo estado e principalmente na cidade de Campinas.

A pequena "risgá", paulistamente dizendo, era a seguinte, o maior sonho do Major Arthur Nogueira era ser intendente da progressista e rica Campinas, algo que nunca conseguiu, o cargo era um dos mais importantes no estado de São Paulo. Já seu adversário João Aranha este foi nomeado por diversas vezes intendente da prefeitura de Campinas, nomeado diretamente pelo governador, na época o ex presidente Campos Salles, parente próximo do Major, o que aumentava assim ainda mais as disputas entre os dois.

    Nesta disputada política entre os dois fazendeiros, o jovem professor aproveitou-se para beneficiar os alunos, quando o próprio intendente de Campinas lhe deu essa dica, e acabou dando certo. Em 1906 a escola se tornava um realidade, João Aranha doou o terreno e iniciou a construção, e o Major Nogueira ao ver a atitude do adversário político, fez a doação de todos os móveis da escola.

Estava feito, surgia então a primeira escola pública de Cosmópolis, uma pequena edificação, com uma janela e uma porta de entrada, e um grande terreno que servia de pátio aos alunos.

Neste pátio, que eram as laterais da construção, o professor Felício ensinava aos alunos um esporte ainda pouco conhecido no Brasil, o footbal, o qual havia aprendido quando estudou na capital Paulista, e que anos mais tarde se tornaria um dos orgulhos cosmopolenses, com o surgimento do clube esportivo Cosmopolitano Futebol Clube, entre os primeiros  clubes de futebol do Brasil, e pioneiro  a possuir um estádio próprio em 1915.

1910/ Professor Felício Marmo em seu quarto no Hotel Saturno, na cidade de Salto de Itu-SP
  O primeiro professor oficial de Cosmópolis, e fundador da primeira escola pública de nossa cidade, permaneceu lecionando em Cosmópolis, até 20 de Janeiro de 1908, quando foi transferido pelo governo estatual para a cidade de Salto de Itu, onde permaneceu até 1912 na cidade. Em Salto de Itu, como em Cosmópolis, o professor Felício foi um dos pioneiros do ensino na cidade, se destacando na história do município. Em sua trajetória profissional, lecionou em diversas escolas do estado de São Paulo, e sempre de maneira pioneira se destacou em todas as escolas que foi professor ou inspetor escolar.

 Em 1974, aos 90 anos de idade escreveu o livro "Memórias de um mestre escolar", no livro o velho professor conta sua passagem por Cosmópolis, detalhes do povo da pequena vila, as dificuldades do início de sua profissão na Vila de Cosmópolis, e também toda sua trajetória como professor em diversas cidades do estado de São Paulo. Um livro que foi reeditado em 2011, pela prefeitura municipal de Cosmópolis, e se encontra a disposição da população na biblioteca municipal, e vale a pena sua leitura, uma verdade viagem no tempo dentro da vida deste mestre, e na história do estado de São Paulo.

O livro retrata a vida do professor Felício Marmo, suas passagens por diversas cidades, as dificuldades dos professores do interior, sofrimentos e privações, o professor Felício relata não apenas sua vida, mas sim a vida de muitos  professores do interior no século passado, com seus momentos de sacrifícios, abnegações, e principalmente o amor em ensinar, e ter este amor como fonte de vida.
Professor Felício Marmo aos 90 anos, em 1974
Meu pai em um acaso do destino conheceu o professor Felício  na cidade de Campinas no início da década de 60, quando esperava uma consulta no instituto Penido Burnier, (famoso centro oftalmológico na Avenida Andrade Neves). Leia seu relato desta interessante passagem de sua vida.

 "Eu nasci com um sério problema de visão, atrofia no nervo óptico, uma doença rara no mundo que por infelicidade, ou, destino, sou portador. 

Passei minha adolescência nos consultórios do Penido Burnier em Campinas, indas e vindas semanais de Cosmópolis à Campinas, quando  a viagem não era feita de trem, eu era levado por um chofer de praça da cidade. 

Em uma dessas consultas com o Dr José Maria de Abreu, cheguei com meu pai na recepção e como sempre lotada de pacientes de todo o Brasil a espera das consultas, ficamos na espera. 

Depois de um tempo fomos chamados pela atendente para preencher a ficha de consulta. Naquele tempo não existia planos de saúde, a consulta era caríssima e paga na hora, no preenchimento da ficha de atendimento. 

Meu pai destes caboclos paulistas falava rápido, e quando ficava nervoso piorava, e meu estado estava um pouco complicado naquele dia, isso então fez com que o velho falasse bem arrastado. 

Ao pronunciar o endereço a moça não entendeu, pela segunda vez ele repetiu, e ela novamente não entendeu, acho que era também uma certa má vontade, e muita gente para atender ao mesmo tempo.

  Ela não compreendia ele dizer Vila Mariana, e Rua Monte Castelo, ao pedir que ele repetisse, ele respondeu bravo: "O dinheiro está aqui, que é o mais importante para a consulta, no restante basta a senhora escrever que eu sou de Cosmópolis, e pronto". 


Um senhor que estava sentado esperando a consulta, acompanhava tudo olhando de longe, e ao finalizar os procedimentos da atendente se aproximou de meu pai, e com um modo muito cordial veio conversar conosco, ele dizia: 

"Então o senhor é de Cosmópolis, que felicidade ouvir este nome, minha vida começou na sua terra". 

E foi nos contando sobre sua vida, que foi professor em Cosmópolis quando moço, e chegou na cidade quando ainda era uma vila,  falando em detalhes como a cidade era naquele tempo.

  Lembro ainda de muitos de seus relatos naquela prosa, que quando chegou em Cosmópolis não existia nem mesmo a igreja de Santa Gertrudes, e quando se mudou da cidade a igreja começava a ser construída. Como a espera pela consulta sempre era demorada, devido a grande quantia de pacientes, a prosa durou horas, e paulista quando começa a prosiar não termina.


 Meu pai  sempre que encontrava alguém mais velho, perguntava se por um acaso a pessoa conheceu seu pai. Meu avô morreu de febre amarela em 1916, quando meu pai tinha apenas 3 anos de idade, então meu pai não tinha lembranças de seu pai  e somente o conhecia por fotos.

 Ao falar o nome de seu pai e o sobrenome Rocha, a prosa já mudou totalmente de assunto, quando os dois começaram a relacionar os sobrenomes, Rocha e Marmo, com o santo do povo, o Antoninho da Rocha Marmo. Os dois começavam a puxar na memória se no final de tudo, em alguma ramagem da árvore da vida, os dois não poderiam ser parentes.

Seu nome  Felício Marmo, ficou em minha memória por este motivo, pelo sobrenome do famoso menino santo, e pelo mesmo nome de um conhecido de meu pai lá da Vila Mariana. Quando o assunto puxava outro assunto, e se alongava em uma gostosa prosa, a atendente nos chamou para a consulta, e o papo se encerrou de repente. Meu pai convidou aquele velho senhor a nos visitar, mas a visita nunca aconteceu, e nunca mais ouvi falar dele novamente.

 Na década de 1990, a história me voltou a mente, quando foi inaugurada em Cosmópolis, uma escola em sua homenagem. 


Em um jornal da cidade  a prefeitura anunciava  a inauguração da escola, e em poucas palavras, descrevia   quem era o homenageado. 

Somente em 1998 que tive  a ideia de sua real importância na história de Cosmópolis, quando então  começamos a pesquisar para o Acervo Cosmopolense, a história deste vulto pouco conhecido por muitos em Cosmópolis. Coisa da vida não é? Acasos do acaso, e felicidades de uma boa memória do passado e destes acasos". Juvenil da Rocha

  Assim como a prosa de meu avô com o velho professor rendeu horas, este assunto merece outras futuras postagens, que em breve serão publicadas neste blog.

Aos professores nossa homenagem neste dia tão especial, e em especial a memória do saudoso mestre Felício Marmo, patrono da educação de Cosmópolis.

Nossa singela homenagem, a este professor que ensinou o saber  da vida a tantos alunos, e este saber até hoje se perpetua em sua imagem e história que tanto orgulha  nossa cidade, por fazermos  parte desta brilhante história de vida deste mestre do ensino.

Em nome dos filhos desta terra, Cosmópolis e do Estado de São Paulo, muito obrigado professor Felício Marmo, por escrever sua história dentro de nossa história. Nossa homenagem ao mestre com carinho...


Texto: Adriano da Rocha

Fotos: Acervo Adriano da Rocha, Acervo Família Marmo e Prefeitura de Salto de Itu-SP



Uma reflexão sobre o dia de hoje...

Por Paulo Coelho (*).

Verdades da Profissão de Professor

  "Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados.

Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho.


A data é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”.

Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tão pouco, a sociedade muda".