Nesta quarta-feira (17), são completados 123 anos de fundação da 'Villa Cosmópolis', sendo oficialmente estabelecido o dia 17/01/1901, como o marco de criação do projeto urbano cosmopolense.
A data é uma correção histórica, formalizada após anos de estudos e pesquisas para a criação do livro 'Cosmópolis de Fazenda Funil à cidade universo', apresentado ao Legislativo Municipal pelo historiador Mano Fromberg.
Os estudos documentais têm como base principal, regimentada como certidão de nascimento de Cosmópolis, a planta de criação e loteamento da 'Villa Cosmópolis', registrada em 17/01/1901, projeto da sociedade agrícola e empreendimentos 'Arthur Nogueira & Cia'.
A planta urbana dos lotes da Fazenda Funil, regulamentada e aprovada pela Prefeitura de Campinas, é o primeiro registro oficial das terras com o nome Cosmópolis, a qual somente tornou-se distrito de paz em 1906.
Aprovada pela Câmara Municipal e oficializada como lei nº 3.116, em 04/05/2009, a data foi instituída como o 'Dia da fundação de Cosmópolis'.
Outras datas na história
A lei estabelece como fundadores de Cosmópolis os responsáveis pela criação da 'Villa', loteamento e desbravamento das terras, o Cel. José Paulino Nogueira Ferraz, Major Arthur Nogueira Ferraz, Sidrack Nogueira Ferraz, Cel. Antonio Carlos da Silva Telles e Paulo de Almeida Nogueira.
Anteriormente, a data oficial de fundação era 04/01/1896, supostamente o marco de criação do Núcleo Colonial Campos Salles, então instituído como lei municipal nº 2.198.
Com as pesquisas do livro, sustentadas historicamente pelos documentos da Câmara Municipal de Campinas, Acervo Público de São Paulo, dentre diários e registros da família Nogueira, proprietários das terras, foi comprovado que o núcleo oficialmente surgiu em 04/12/1897.
Para a instituição da fundação de Cosmópolis, em mais de 77 anos de história política e administrativa municipal, várias datas passaram pelos estudos da Câmara de Cosmópolis; como a fundação da Fazenda Funil, em fevereiro de 1830, início das obras da Carril Agrícola Funilense, em 1890, inauguração da estação ferroviária da Funilense, em 1899, ao marco de compra das terras do Funil, em 1898, para construção da Usina Ester.
Olhar na foto
1905 - Visita da comitiva do Cel. Bento Quirino do Santos em Cosmópolis, acompanhado de inúmeras autoridades políticas da época, notabilizando o presidente do Estado de São Paulo, atual cargo de governador, Jorge Tibiriçá Piratininga e secretários.
No centro usando seus típicas roupas de linho branco, o Major Arthur Nogueira Ferraz recepciona a comitiva nas obras do complexo industrial da Usina Ester, à sua esquerda segurando o chapéu, é o Cel. Bento Quirino, à sua direita, os irmãos Sidrack Nogueira Ferraz e Cel. José Paulino Nogueira Ferraz.
O Major está conversando com o Dr. Carlos Botelho, secretário de Estado, e uma das maiores autoridades públicas da época.
Ao fundo de Sidrack, está o governador Jorge Tibiriçá, ao lado do Cel. José Paulino, o Senador Francisco Glicério. Estão no histórico registro o Dr. Francisco de Araújo Mascarenhas, prefeito de Campinas, o arquiteto Dumont Villares, sobrinho do inventor Santos Dumont, e responsável pelas obras do complexo industrial da Usina, o arquiteto e engenheiro Ramos de Azevedo, Cel. Silva Telles, dentre outras autoridades e familiares dos Nogueira.
Uma data para ser exaltada com muito orgulho e respeito, especialmente profunda gratidão, aos verdadeiros ‘colonizadores’ das nossas terras cosmopolenses, os cortadores de cana-de-açúcar.
Todo cosmopolense, tem infindas histórias familiares sobre os trabalhos nos canaviais, preservadas em incontáveis memórias narradas para suas gerações.
Quem nunca foi trabalhador da cana, com certeza, tem alguém da família, com ligações trabalhistas envolvendo direta ou indiretamente, os vários ofícios da cana, sobretudo o seu corte pelos ‘verdes mares de canaviais cosmopolenses’.
Muito antes da instalação da Usina Ester, com seu progresso industrial em 1898, instituição da Carril Agrícola Funilense, em 1890, aos desbravamentos da Fazenda Funil, nos primórdios de 1800, a cana já estava instituída como atividade econômica nas terras cosmopolenses, então pertencente ao território de Campinas.
Utilizando a Inteligência Artificial (IA) e processos de arte digital, criamos versões destes profissionais e seus trabalhos, muitas vezes no passado, iniciados ainda criança, acompanhados de irmãos, pais e familiares.
Atualmente, o corte de cana praticamente está extinto no Estado de São Paulo, assim como na indústria açucareira e propriedades rurais de Cosmópolis, empregando na Usina Ester, arrendadores e fornecedores os cortes mecanizados.
Nossa homenagem aos ‘cortadores e cortadeiras de cana’, primordiais para o surgimento da nossa Cosmópolis. O passado retratado digitalmente, resgatando memórias no presente.
Faleceu na manhã desta terça-feira (16), aos 80 anos de idade, o cosmopolense Benedito Bocaiuva, popular ‘Dito Bocaiuva’.
Dito em seu marcante ponto na esquina da Drogal
Nascido na extinta Colônia do Pinheiro, histórico conjunto de casas do complexo da Usina Ester, é um dos cinco filhos do casal Durvalino e Altimira Bocaiuva, entre as primeiras famílias de origem africana de Cosmópolis, trabalhadores dos primórdios da Fazenda Funil.
O popular ‘Dito’ é irmão do saudoso João Bocaiuva, marcante ritmista dos blocos carnavalescos e conjuntos cosmopolenses, famoso pela maestria no pandeiro, assim como, pelas vendas de amendoins torrados e salgados, uma típica receita dos Bocaiuvas.
Juntamente com os irmãos, seguindo os caminhos de gerações da família, iniciou sua vida profissional na Usina Ester, trabalhando no corte de cana e moendas, aos ofícios na carpintaria da indústria açucareira.
Aposentado dos trabalhos na Usina Ester, mais de 40 anos de serviços, conseguiu uma casa popular no conjunto habitacional Cosmopolita, onde foi um dos primeiros moradores do bairro, construído nos anos de 1970.
Os ofícios na carpintaria da Usina Ester, surgindo sua exímia habilidade com a madeira, reaproveitando tudo das oficinas e serrarias, despertava uma paixão da sua infância, as confecções de singulares brinquedos do passado.
Artesanalmente, utilizando sobras de materiais e ferramentas manuais, criava versões próprias de brinquedos infantis, destacando seus icônicos carrinhos, caminhões e carretas, totalmente construídos de madeira.
Uma pessoa extremamente simples, possuidor de fala mansa, sorriso fácil e sincero, apaixonado pelos programas radiofônicos sertanejos, sempre ouvidos em seu inseparável radinho de pilhas.
A paixão pelo rádio notabilizava seus percursos de bicicleta, uma zelosa barra forte Monark, onde transportava de tudo no bagageiro, aos produtos comprados nas promoções dos Supermercados e feiras livres, ao ‘banquinho’ de madeira, seu companheiro nos ‘pontos de prosas’.
O ponto mais conhecido do velho ‘Seo Dito’, estabelecido durante anos, foi na esquina da farmácia Drogal, localizada entre a rua Sete de Setembro e Avenida Ester, permanecendo diariamente horas sentado, conversando e ouvindo música.
Um verdadeiro personagem popular cosmopolense, legítimo coloninho e filho da terra, querido pela simplicidade e irreverência, aos modos inconfundíveis que marcaram época, principalmente gerações.
Os nossos sentimentos aos filhos, netos, bisnetos e família Bocaiuva.
Quem foi essa mulher, precursora de 144 anos de histórias ?
Texto Adriano da Rocha
Início dos anos 1900 - Animação de foto pintura de Esther Coutinho Nogueira
Há mais de 123 anos, seu nome é referência, marca, localização, símbolo do progresso industrial, agrícola e municipal. Um nome imortalizado em grandes empreendimentos, marcante na história do Estado e, principalmente, na cidade de Cosmópolis.
Esther, com th, ou com t, pela nova ortografia dos anos 1940, enaltecido em velhas placas de ágata, nomeando a principal Avenida de Cosmópolis, bairro, e a primeira escola infantil municipal.
Em Campinas, é localização no bairro Vila Nova, logradouro de casas e prédios residências, circunscritos na Rua “Dona Estér Nogueira”.
Saguão de entrada do Edifício Esther, marcado por ornamentos em bronze e ferro forjado com alusão as engrenagens da Usina Ester, inaugurada em Cosmópolis em 1898. Foto: Shoichi Iwashita
Edifício Esther, localizado na região da Praça da República, em São Paulo. Inaugurado em 1934, a obra é assinada pelos engenheiros Álvaro Vital Brasil e Adhemar Marinho, considerada a primeira edificação modernista do Estado. O projeto foi escolhido através de um concurso, organizado por Paulo de Almeida Nogueira, esposo de Esther Nogueira. O edifício foi criado como nova sede dos escritórios comerciais da Usina Ester, sendo blocos de uso misto, com salas comerciais, escritórios, lojas e apartamentos. O segundo bloco ao lado do Esther, é o edifício Arthur Nogueira. Foto: Shoichi Iwashita
Imponente, esculpido em gigantescas peças de mármore italiano, ornamentado em letras de bronze, nomeia um dos mais famosos prédios da capital, o modernista “Edifício Esther”. Neste edifício, parte de um conjunto de prédios comerciais e residências como o "Arthur Nogueira" e "José Paulino", residiam e frequentavam importantes nomes da cultura e política paulista, como Mário e Oswald de Andrade, Tarcila do Amaral, entre outros importantes nomes das artes e literatura.
Oficialmente inaugurado em 1938, o edifício Esther é o primeiro prédio modernista de São Paulo, localizado na região da Praça da República, foi projetado pelos jovens arquitetos Alvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho. Na mesma região, considerada um dos marcos históricos de São Paulo, estavam localizados os escritórios comerciais e depósitos agrícolas do Grupo Esther.
As homenagens, trazem sempre uma dupla menção, a pessoa Esther, e a marca imortalizada com seu nome, a “Usina Açucareira Ester”.
1949 - Imagem aérea do complexo industrial e colonial da Usina Ester em Cosmópolis / Foto Acervo paulista da I.N.F.A
Oficialmente fundada em 02 de março de 1898, é a mais antiga indústria açucareira das Américas, funcionando interruptamente, há 123 anos. O nome da secular usina e seu grupo agrícola industrial, são homenagens a Esther Coutinho Nogueira. Cosmópolis surgiu e desenvolveu-se através da Usina Ester e empreendimentos dos grupos agrícolas, férreos e industriais do grupo Ester.
Quadro à óleo retratando Esther Coutinho Nogueira - Imagem original ficava exposta na Usina Ester
Mas quem foi Esther?! Referência diária para milhares de cosmopolenses, conhecida avenida e usina, e desconhecida por muitos, a história da pessoa homenageada.
“Esther, era de estatura mediana, olhos negros intensos, pele morena clara, típica nuance e estereótipo paulista. Sempre serena, falava calmamente, um jeito único, gentil e caridoso. Como era costume na época, falava e escrevia, em francês, inglês, italiano e espanhol. Assim como o latim, necessário para acompanhar as missas católicas, as quais, frequentava assiduamente. Mulher de destaque nos grupos assistenciais, ajudava sem olhar à quem fosse o desvalido. Foi honrosa filha, progenitora e sobrinha, sempre enaltecida pelo estremo afeto e amor, como a mãe de toda família.”.
Assim descreve a pessoa de Esther, seu neto, Paulo Nogueira Neto, em entrevista ao blog do Acervo Cosmopolense, em outubro de 2018.
1930- Esther Nogueira aos 53 anos de idade - Foto acervo Adriano da Rocha
Esther Nogueira Ferraz, seu nome de solteira, a mais velha de 8 irmãos, filha do casal José Paulino Nogueira Ferraz e Francisca Coutinho Nogueira Ferraz. Nasceu em um extinto casarão da família, localizado na atual Rua Barreto Leme, região da agência do INSS, marco do surgimento da cidade de Campinas.
DUMONTS COMO AMIGOS DE INFÂNCIA
Esther iniciou os estudos no “Colégio Florence”, de propriedade de Carolina Florence e Hércules Florence, um dos inventores da fotografia, estudando com as irmãs de Santos Dumont, Francisca e Gabriela. A jovem Francisca de Paulo Dumont, estava entre suas melhores amigas de infância, nascidas no mesmo ano.
Terminou os estudos no “Colégio Culto à Ciência”, o qual seu pai José Paulino, foi um dos fundadores, em sociedade com Antônio Pompeu de Camargo, Campo Salles, Francisco Glicério, Américo Brasiliense, Prudente de Moraes Barros, entre outros. Importantes nomes do império, responsáveis pela proclamação da república, amigos e familiares dos Nogueiras Ferraz.
Nesta mesma escola, seus irmãos mais novos, estudaram com o jovem Alberto Santos Dumont, genro de João Manuel de Almeida Barbosa, dono da Fazenda Funil. Propriedade rural, que futuramente, em 1898, seria instalada a usina com o nome “Esther”, terras que originariam a atual cidade de Cosmópolis.
FEBRE AMARELA E O AMOR PELA CARIDADE
A grande epidemia de febre amarela, responsável pela morte de milhares de pessoas em Campinas e região, mudava seu destino em 1889. Ano marcado pelo alastramento da doença, centenas de pessoas morriam semanalmente da misteriosa epidemia. Campinas, que estava sendo cogitada como a nova capital, era dizimada pelas incontáveis mortes.
1880 - José Paulino Nogueira Ferraz, pai de Esther e importante personagem da história brasileira. Foto Acervo Companhia Paulista de Trens e Estradas de Ferro, empresa a qual Paulino, foi um dos presidentes e principais acionistas
Seu pai José Paulino, então presidente da Câmara de Campinas, foi um dos poucos políticos que permaneceram na cidade. Esther, irmãos e a mãe dona Francisca, ficaram na cidade, unidos com os princípios do patriarca, ajudando os milhares de doentes.
Esther, com 12 anos de idade, percorria com os irmãos as ruas, angariando alimentos aos desvalidos doentes, e recursos financeiros para as obras de saneamento, idealizadas pelo pai.
O frequente contato com os doentes, infecta seus pais, José Paulino e dona Francisca. O pai, consegue recuperar-se da doença, a mãe não resistindo as várias sequelas, morre meses depois.
A FAMÍLIA EM PRIMEIRO LUGAR
Março de 1907 - Viagem para a estação das águas, em Poços de Caldas, Minas Gerais. Da esquerda para direita: José Paulino, Esther Nogueira, Tilinha, Paulo de Almeida Nogueira, Bento Quirino, Sinhá Quirino Moraes Barros, Paulo Nogueira Filho, José Paulino Neto, Francesquinha Nogueira e seu noivo Nicolau Moraes Barros. Os Moraes Barros na foto, são sobrinhos do presidente Prudente de Moraes - Foto Acervo família Coutinho Nogueira
Esther, era o reflexo e base do pai, permanecendo ao seu lado na viuvez, abandonou a própria vida pessoal, para cuidar da família. O primo Paulo de Almeida Nogueira, ficou apaixonado pela marcante personalidade da jovem, propondo casamento ao seu pai. Esther aceitou, com uma condição, terminar a criação dos irmãos, e estar sempre na companhia do pai.
1895 - Esther Coutinho Nogueira, com 18 anos, no dia de seu casamento- Foto acervo Adriano da Rocha
Casou-se aos 18 anos de idade, no mesmo dia do casamento, uma cerimônia simples realizada na Basílica de Nossa Senhora do Carmo, em Campinas, os noivos mudaram-se para capital. A residência, o casarão de José Paulino, localizado em lugar de destaque na Avenida Paulista.
A extinta construção, considerada uma das mais imponentes de São Paulo, era assinada pelo arquiteto e engenheiro, Ramos de Azevedo. O mesmo que construiu o Theatro Municipal de São Paulo, Mercadão, Pinacoteca, Catedral de Campinas, entre outras imortais obras. Ramos de Azevedo, era primo dos Almeida Nogueira, sendo sobrinho da mãe de Santos Dumont.
Dezembro de 1930 – Tradicional almoço de agradecimento, organizado pelo casal Esther Coutinho Nogueira e Paulo de Almeida Nogueira, no fim das safras da Usina Ester. Ao centro da foto, está Esther e Paulo, ao lado esquerdo as mulheres são, a nora Regina Coutinho Nogueira, esposa de Paulo Nogueira Filho (Paulito), neta do ex-presidente Campos Salles, e Odila Egídio de Souza Santos Camargo. Odila, familiar de Joaquim Egídio (que leva o nome do distrito campineiro), foi uma das primeiras professoras da Usina Ester. Na esquerda, o segundo homem é seu esposo, Lafayette Álvaro de Souza Camargo, então diretor da Usina, anos depois, nomeado prefeito de Campinas.
Em Cosmópolis, Ramos de Azevedo projetou o complexo industrial da Usina Ester, extintos Palacete Irmãos Nogueira (Sobrado), e antiga Igreja Matriz de Santa Gertrudes, e o Mercadão de Campinas (então armazém da Carril Funilense). Entre outras edificações da família Nogueira, sempre supervisadas, pelo escritório Dumont Villares, pertencente ao sobrinho de Santos Dumont, associado à Ramos.
1929 - Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado da Usina, residência da família Nogueira em Cosmópolis, localizado em frente ao complexo industrial da Usina Ester. Na sacada, estão Paulito, Paulo de Almeida e Paulino Neto. A edificação projetada por Ramos de Azevedo, foi demolida em 2011 - Foto acervo Adriano da Rocha
USINA AÇUCAREIRA ESTHER E FUNILENSE
1900 - Visita ao recém inaugurado complexo industrial da Usina Ester. Na esquerda, a primeira mulher é Esther Nogueira, ao lado do esposo Paulo de Almeida Nogueira e o pai José Paulino. O primeiro homem de chapéu, é Dumont Villares, sobrinho de Santo Dumont, e responsável pelas obras do Escritório Ramos de Azevedo / Foto acervo Usina Ester
Em 1898, com a oficialização das compras da Fazenda do Funil, surgia um dos maiores empreendimentos industriais do interior paulista, a construção da Usina Açucareira Esther. O nome, uma homenagem feita pelo Major Arthur Nogueira, a estimada sobrinha Esther. A Usina tinha José Paulino, e outros três familiares, como idealizadores e proprietários do audacioso empreendimento.
O projeto industrial e agrícola, mudaria o cenário e a história, de toda antiga região do Funil. Para transportar as produções da Usina Esther e demais fazendas do grupo, foi criada a “Companhia Carril Agrícola Funilense”, onde eram sócios os Nogueira Ferraz, Coronel Silva Teles, Barão Geraldo de Rezende e João Manuel de Almeida Barbosa, antigo proprietário da Fazenda Funil.
1900 - Locomotiva Esther, um dos trens responsáveis pelos transportes agrícolas da Carril Funilense. A locomotiva encontra-se preservada na residência de Paulo Nogueira Neto, no bairro Morumbi, em São Paulo - Foto acervo Miler Adamo
Entre as várias locomotivas, importadas da Inglaterra, fabricadas exclusivamente à companhia, uma das principais, recebia o nome de Esther Nogueira. A gigantesca “Maria fumaça”, movida pela combustão de lenha, transportava as produções da Usina, produtos agrícolas dos núcleos coloniais e associados da Funilense, que seguiam destino para Campinas e São Paulo.
Às margens das linhas férreas, surgiam os futuros municípios de Cosmópolis, Paulínia, Artur Nogueira, Holambra, Engenheiro Coelho, Conchal, Americana, entre outros municípios da região, formados através dos caminhos abertos pelas estradas de ferro.
Esther e o esposo Paulo de Almeida Nogueira, rodeada dos filhos e irmãos. Registro feito em Paris-França, em 1908. Foto Acervo família Coutinho Nogueira
O esposo, Paulo de Almeida Nogueira, foi nomeado como um dos principais diretores da Usina, sendo responsável pela empresa e demais grupos agrícolas da família.
Esther, sempre ao lado do esposo, vivia entre São Paulo e Campinas, residindo na Fazenda São Quirino, mais antiga propriedade agrícola em atividade interrupta do Brasil, pertencente à família do esposo, e o Sobrado da Usina.
1899 - Esther Nogueira e Paulo de Almeida Nogueira, com o filho Paulo e "Tilinha", irmã de Esther, filha de José Paulino
Nestes percursos pelas propriedades da família, nasciam os filhos, Paulo Nogueira Filho e José Paulino Nogueira Neto. Paulo, o Paulito, como era carinhosamente apelidado pela mãe Esther, destacou-se em várias áreas, sobretudo a literatura, jurídica e histórica paulista, e a política estadual.
1909/ Paris,França / Os irmãos José Paulino Nogueira Neto e Paulo Nogueira Filho, filhos de Ester - Foto Acervo Família Coutinho Nogueira
REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932
1944 - Paulito, em fotografia tirada em março de 1944, no sul da Argentina, durante seu exílio imposto pelo ditador Getúlio Vargas - Foto Paulo Nogueira Neto
Paulito, foi um dos principais líderes da Revolução Constitucionalista de 1932, utilizando o Sobrado da Usina, como sede de comandos dos generais e capitães do movimento. O complexo industrial da Usina, mantinha soldados, chegando até, a serem criados projetos para a fabricação de munições.
Esther, ao lado do esposo e filho, angariavam fundos para financiar o ideal paulista da nova constituição, assim como, destituir o ditador Getúlio Vargas.
1932 - Destaque no mapa de W. Rodrigues, para o front de Campinas, próximo ficava a Usina Ester
Nos meses da Revolução, Esther fixou residência na São Quirino e Cosmópolis, devido aos constantes bombardeiros e agitações da capital e Campinas. Na região, coordenou com o filho Paulito, a campanha “Ouro para o bem de São Paulo”, que buscava financiar os suprimentos às tropas paulistas. Paulo de Almeida Nogueira, fazia as intermediações junto aos empresários e fazendeiros, angariando altas quantias ao grupo.
Em Cosmópolis, as centrais de arrecadação organizadas com apoio de Esther e Paulito, ficavam no Sobrado e nas imediações da Estação Sorocabana.
Esther Nogueira Ferraz aos 18 anos de idade- Foto Acervo família Coutinho Nogueira
Em 12 de junho, completará 142 anos do seu nascimento. Marcando no dia 06 de novembro de 2018, 77 anos da sua morte, em 1941. Esther faleceu aos 64 anos de idade, em seus últimos anos de vida, residiu na Fazenda São Quirino. Entre os principais agravantes de sua morte, o sofrimento pela ausência do filho Paulito, exilado pelo ditador Getúlio Vargas, no fim da revolução de 1932.
Placa viária em ágata, datada de 1955, exposta na Avenida Ester
No dia 02 de março, a Usina Ester completou 121 anos de fundação, preservando não somente sua história industrial e comercial, mas também, a memória de Esther. São realizadas anualmente as missas em graças as safras e saúde dos trabalhadores, doações de frutas dos pomares da usina, assim como ajuda financeira, às entidades filantrópicas, e os tradicionais presentes de natal aos filhos dos funcionários. No passado, ações realizadas pessoalmente por Esther.
DESPEDIDA DE ESTHER
Julho de 1941 - A foto em destaque, é o último registro de Dona Esther em vida, feito na varanda da Fazenda São Quirino. Na varanda, quando encontrava forças, ficava contemplando o horizonte da grandiosa fazenda. Olhando distante, na esperança de ver o filho regressando. O registro foi feito pelo neto, José Bonifácio Coutinho Nogueira
Em 06 de novembro de 1941, uma triste quinta-feira, há exatos 77 anos. Estridente o telefone de baquelite tocava no escritório, a telefonista transmitia uma mensagem de Campinas.
Com triste pesar, a funcionária da “Companhia Sino Azul” noticiava à direção da Usina Ester: “Dona Esther Nogueira, acabou de falecer”
Era acionada a velha sirene da Usina, colonos e pessoas da Villa de Cosmópolis, ficavam alarmados com o incessante som. O povo cosmopolense, somente ouviu a sirene ecoar daquele jeito, nos tempos da Revolução de 1932.
A triste notícia espalhava-se, ainda mais que o som incessante da sirene, ecoando pelos canaviais. Ouvia-se em Arthur Nogueira, Limeira, Paulínia e Americana.
Pausados toques, dobrando o tom de luto, os sinos do campanário da Igreja Matriz de Santa Gertrudes, confirmavam a notícia.
Muitos cosmopolenses choravam, sem ao menos conhece-la pessoalmente. Eram as dores da gratidão, lágrimas em respeito à sua memória, sentimentos de um povo benevolente, assim como, a matriarca do progresso regional.
Em comovida homenagem, o jornal “O Estado de São Paulo”, noticiava com destaque o falecimento de Esther Nogueira.
O renomado professor Nicolau de Morais Barros, sobrinho do Presidente Prudente de Morais, expressava os sentimentos do povo paulista, pela triste perda. Abaixo, trechos da histórica publicação.
“Tinha uma personalidade marcante e de singular relevo. Oriunda de tradicional família paulista, nasceu em Campinas, e ali cresceu e se educou. Seu pai, José Paulino Nogueira, campineiro dos mais ilustres, ali vivera longos anos, amando e honrando sua terra natal, prestando-lhe assinalados serviços e cobrindo-se de benemerência, durante a epidemia de febre amarela, como presidente de sua municipalidade.
Proclamada a república, e nomeados ministros Francisco Glicério e Campos Salles, amigos diletos dos quais nunca se separou, Campinas se revestiu de galas para receber os filhos vitoriosos.
Coube a menina Esther, então com 12 anos de idade, trajada de república e ostentando o barrete frígio na cabeça, cingir a fronte de Glicério com a coroa de louros simbólica, dirigir-lhe uma saudação de glórias, pronunciada com ênfase e vibração patriótica.
Foi mãe extremosa e desvelada de seus oito irmãos, o mais novo dos quais contava com meses de vida.
Repartiu-se entre o pai, o marido, os irmãos e os dois filhos que lhe vieram. Desdobrou-se em carinhos e cuidados, com uns e com outros, fez-se o centro da família, e tornou-se o ídolo da casa. Um símbolo de caridade para toda sociedade.
Possuía Dona Esther, em alto grau e perfeito equilíbrio, as edificantes virtudes femininas. Mas o traço característico de sua personalidade, a essência de sua formação moral, era a bondade.
Bondade espantosa, irreprimível e transbordante. Bondade que fluía das palavras que lhe afloravam aos lábios, que irradiava do seu olhar mortiço e doce, que inspirava os menores atos e gestos de sua vida e que a fez tão benquista dos que lhe aproximaram.
Muito caridosa, ela praticava a filantropia e de acordo com o preceito evangélico, escondida e ignorada.
Sua bolsa nunca se fechou a um pedido. Bem poucos, dentro dos seus íntimos, conheciam a extensa lista dos seu protegidos, aos quais prodigalizava, além do auxílio pecuniário mensal, interesse solicito e assistência material e moral.
Dotada de inteligência aguda e clara, e notável memoria, ela se deleitava em rememorar fatos e episódios dos seus tempos de moça, em Campinas, e os sabia contar com surpreendente minucia nos detalhes.
Muito sensível aos agrados e carinhos que recebia, não era o menos aos que se lhe recusavam. Magoava-se, doía-se, mas...perdoava
Presa ao seu leito de dores e sofrimento, por longos e intermináveis meses, ela teve os males do corpo agravados pela saudade torturante de um filho ausente, que sonhava rever, antes de fechar os olhos. Quis o destino que esse sonho não se realizasse!!
A sua morte despertou, na sociedade paulista, um sentimento generalizado de pesar. O seu funeral, constitui-se de uma tocante consagração, já pela desusada influência de pessoas amigas, já pela profusão das flores que envolveram o seu esquife” (...).
Um dos últimos registros de Esther Nogueira, animado pelo MyHeritage
Texto Adriano da Rocha
Fotos: acervos família Coutinho Nogueira, Usina Ester, Adriano da Rocha, Shoichi Iwashita, Miler Adamo e Paulo Nogueira Neto