terça-feira, 9 de julho de 2019

"REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA EM COSMÓPOLIS"


Muitos desconhecem o motivo do feriado, estabelecido há 10 anos no Estado, a grande maioria na verdade, nunca aprendeu sobre sua história nas escolas públicas
Cartões postais da Revolução de 1932 e condecorações de soldados paulistas. Objetos originais de época, pertencentes ao patrimônio de memorabilidade Paulista do Acervo Cosmopolense

  Em 2019, são relembrados os 87 anos da “Revolução Constitucionalista de 1932”, movimento popular que exigia a elaboração de uma nova constituição nacional, e a redemocratização do governo, então comandado pelo ditador Getúlio Vargas. Não foi um movimento separatista, como erroneamente foi divulgado pelo regime Vargas, mas sim, pela liberdade e direitos de todo o povo brasileiro.

Foi a maior revolução popular armada, unindo classes sociais e partidos, da história brasileira. Único notório levante nacional contra um ditador e seu regime, instituído por golpe militar, em 1930. São algumas das respeitáveis marcas da “Revolução Constitucionalista de 1932”, celebrada sua memória neste feriado estadual de 9 de julho.

Mapa da Revolução , obra de José Wash Rodrigues. Destaque no brasão dos pavilhões para Campinas , ao lado de Santos e São Paulo, como principais bases do movimento constitucionalista

Nos quase seis meses de conflitos, uma verdadeira guerra entre brasileiros, somariam mais de 2 mil mortos. Cessando somente, devido ao esgotamento das tropas paulistas, atenuadas pela escassez de munições e condições de saúde dos soldados. São Paulo combateu sozinho, devido a desistência dos estados como Minas Gerais, Paraná e Mato Grosso, a "guerra paulista pela constituição" foi encerrada em 2 de outubro de 1932, com a rendição do exército paulista. Um acordo realizado com Getúlio Vargas, garantindo as vidas dos soldados e retaliações ao Estado.

Uma data com extraordinária importância histórica, responsável pela garantia de vários direitos na criação da nova constituição em 1934. Nesta constituição, foram instituídos o voto feminino e igualdade de direitos entre homens e mulheres, criação da carteira profissional e direitos trabalhistas, obrigatoriedade e gratuidade do ensino, sendo o ensino religioso facultativo, respeitando a crença do aluno; proibição do trabalho e exploração infantil; princípio da igualdade perante a lei, entre inúmeras garantias, pleiteadas pelo movimento constitucionalista.

Relembrando a importância de Cosmópolis na Revolução de 1932, resgatamos histórias do movimento constitucionalista nas terras cosmopolenses. No período, a “Villa Cosmópolis”, então um dos distritos pertencentes ao território do município de Campinas.

TRINCHEIRAS E CRIANÇAS 
1982/ Região onde existiam as trincheiras no Morro Castanho. Em destaque funcionários da prefeitura de Cosmópolis, limpando os terrenos para o processo de ampliação da atual vicinal prefeito Oswaldo Heitor Nallin, acesso à Limeira e Artur Nogueira

A região das atuais praças "Major Arthur Nogueira" e "Estudantes", popular "Coreto" e "Praça do Relógio do Sol", foram protegidas por trincheiras nas ruas Baronesa Geraldo de Rezende e Campinas. A razão, era a Estação de trens da Sorocabana, e os desvios das linhas de acesso à Campinas, então localizados naquele ponto. As trincheiras protegiam os acessos férreos de uma possível invasão “Getulista”, e garantiam a proteção da população.

Em pontos estratégicos, foram criadas grandes trincheiras e bases de monitoramento, como no “Morro Castanho” (acesso para Limeira, Americana e Piracicaba), “Morro Amarelo” (acesso para Campinas, principal base dos comandos), e Morro do Schwartz (região do Sucão, acesso para Artur Nogueira, Mogi Mirim e sul de Minas).

2016/ Morro Amarelo, região conhecida como "Caminho da Onça", onde foram criadas as trincheiras para proteção dos acessos por Campinas

Um fato interessante, eram os soldados que faziam as vigias, crianças como os meninos Poério Tavano, Custódio da Rocha, Manuel da Rocha, Hugo Taboga, entre outros saudosos cosmopolenses.

Sem munições, as armas e balas foram doadas pela população aos soldados, os meninos passavam os dias afiando facões e lâminas de baionetas, as quais eram entregues as tropas.

Caso houvesse os avanços Getúlistas, avistadas nestes pontos, os meninos avisavam os comandos das tropas paulistas, localizado no Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado da Usina Ester.

Para amedrontar as tropas Getúlistas, os meninos eram munidos de matracas, um instrumento confeccionado de madeira, o qual emitia um som semelhante aos disparos de metralhadoras. As matracas cosmopolenses, segundo Poério, eram fabricadas pelo mestre Antônio Tavano, marceneiro e maestro da Corporação Musical.

FÁBRICA DE PÓLVORA E MUNIÇÕES
2016/ Morro Amarelo, região conhecida como "Caminho da Onça", onde foram criadas as trincheiras para proteção dos acessos por Campinas
 
Um dos grupos de inteligência das tropas paulistas, seguindo um projeto de Paulo Nogueira Filho (Paulito), analisava fabricar pólvora e munições na Usina Ester. As munições seriam confeccionadas nos maquinários do complexo industrial, utilizado como uma fundição, e próximo ao Rio Jaguari, a fabricação da pólvora.

A localização, os mais de 40 quilômetros de trilhos que passavam pelas terras da Fazenda Usina Ester e Cosmópolis, facilitariam o transporte e envio de munições para as grandes bases do movimento, principalmente as tropas paulistas nas divisas com Minas Gerais.

A notícia do bombardeio de uma fábrica de pólvora em Lorena, alarmava os proprietários da Usina Ester. Os bombardeiros realizados pelos “vermelhinhos de Getúlio”, apelido paulista aos aviões da força aérea comandada pelo ditador, deixaram vários feridos e mortos na cidade, e uma gigantesca cratera gerada pela explosão dos estoques de pólvora da fábrica.

Temendo um bombardeiro, e sobretudo, prezando pelas vidas dos moradores das colônias, centenas de casas existiam próximas da Usina, Paulo de Almeida Nogueira proibiu a continuidade do projeto.

Os testes aconteciam na região do “Poção”, próximo da antiga ponte férrea sobre o rio Jaguari, neste ponto, os soldados fabricavam o carvão vegetal, utilizado como princípio da pólvora negra. As experiências na fabricação de pólvora naquele ponto, apelidaram as margens da extinta ponte como “Queima chão”.

SEDE DOS COMANDOS E INTELIGÊNCIA
2011/ Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado, momentos antes da sua demolição. Em destaque, na parte superior, o mirante do Major, área reservada para monitoramento pelas tropas paulistas

O extinto Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado da Usina Ester, foi utilizado como base de chefias na Revolução. Altas patentes militares, chefes de inteligência e estratégica militar, criaram uma central de comandos e supervisão da região.

Construído nos anos de 1900, junto com a velha Igreja Matriz de Santa Gertrudes e o Mercadão de Campinas, a edificação foi projetada pelo renomado arquiteto Ramos de Azevedo, sendo as obras supervisionadas pelo jovem Dumont Villares, sobrinho do celebre inventor Santos Dumont.

O Sobrado foi edificado em local estratégico na Fazenda Usina Ester, atendendo as exigências do Major Arthur Nogueira Ferraz, estabelecido em um ponto onde os irmãos poderiam visualizar todas as terras e empreendimentos da família.

Na parte superior do Sobrado, inspirado em uma edificação suíça, era possível ver toda região através de um cômodo especialmente projetado por Ramos de Azevedo.

Neste ponto do Sobrado, conhecido como mirante do Major, visualizava-se as cidades de Campinas, Americana, Limeira, e as “villas” de Arthur Nogueira, José Paulino (atual Paulínia), e toda Cosmópolis.
2011/ Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado, momentos antes da sua demolição. Área interna do mirante do Major, reservada para monitoramento pelas tropas paulistas. Neste espaço, com múltiplas janelas, os comandantes podiam observar toda região


Outra razão importante na escolha do Sobrado, era a privilegiada visão das linhas férreas que “cortavam” a região, assim como os horizontes mineiros, sendo crucial para os comandos no caso de possíveis invasões das tropas Getúlistas.

Mais um quesito importante, eram os sistemas de eletricidade, telefones e telégrafos do Sobrado. Assim como todo o complexo industrial da Usina, o Sobrado possuía distribuição de energia elétrica gerada na própria fazenda, através da hidroelétrica do Paredão.
Sendo impossível os cortes no fornecimento, derrubada de postes por tropas inimigas, devido ao sistema de distribuição transmitido por cabos subterrâneos.

2011/ Palacete Irmãos Nogueira, popular Sobrado, momentos antes da sua demolição. Em destaque, um dos acessos as janelas com visão para aérea norte 


PONTOS DE ARRECADAÇÃO DE OURO E PRATA
Para financiar os custos com alimentos, uniformes, e principalmente materiais de guerra, como capacetes, armas e munições, o Movimento Constitucionalista criou a campanha “Ouro para o bem de São Paulo”.

A população doava os objetos de ouro e prata em determinados pontos, criados e comandados pelas tropas constitucionalistas, recebendo como prova e gratidão ao apoio, um diploma de reconhecimento. Os casais que doavam joias como alianças de casamento e noivado, recebiam uma aliança de ferro, com a marca do movimento.

Em Cosmópolis, a campanha era organizada pelo casal Paulo de Almeida Nogueira e Esther Coutinho Nogueira, proprietários da Usina Ester. Os pontos de coleta eram o Sobrado e a Estação da Sorocabana.

Devido a idoneidade e respeito da família Nogueira, todas as classes sociais da região participaram. Nas centrais de doações, criadas pelos Nogueiras, também eram realizados as confecções de uniformes e reformas, entrega de alimentos e suplementos, cuidados médicos, e bases postais para comunicação com as famílias e comandos.

Esther Nogueira, doou todos os objetos de ouro e prata da Usina, sendo dela a frase: “Meu bem mais precioso não será ouro e prata, mas a doação dos meus filhos ao estado de São Paulo”.

José Paulino Nogueira Netto e Paulo de Almeida Nogueira Filho, estiveram entre os principais líderes do movimento, sendo Paulo Filho, o Paulito, um dos mais atuantes da Revolução.

Paulito, esteve à frente dos financiamentos das tropas, sendo responsável pelas articulações em todos os setores. São de sua autoria importantes livros e publicações sobre o período, em sua gestão como deputado, foi um dos idealizadores da oficialização de monumentos e referências estaduais em memória aos combatentes.

Na Argentina, foi em viagem secreta para as compras de munições, buscando o apoio de Agustín Pedro Justo Rolón, então presidente da Argentina. Traído pelo governo argentino, o qual temia as retaliações de Getúlio Vargas, Paulito e seu grupo foram detidos. Impossibilitando as tropas paulistas do recebimento dos armamentos e ajuda dos compatriotas argentinos.

No contrário, a Revolução poderia ter outros rumos, quem sabe até, conseguindo seu principal objetivo, a nova constituição no vigente ano ....
Continua...

Texto Adriano da Rocha
Fotos Acervo Grupo Filhos da Terra, João Paulo Pexe , Eduardo Ketelhuth

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