terça-feira, 27 de junho de 2017

ADEUS AO MESTRE BERTO TONUSSI

70 anos dedicados à barba,cabelo e bigode




    Cosmópolis diz adeus ao filho Roberto Tonussi, o popular Berto Barbeiro. Um dos mais queridos “Reis da Tesoura”, faleceu na manhã de domingo (26), aos 86 anos de idade. Berto era o mais antigo comerciante, ainda em atividade, na cidade.
Foram 70 anos dedicados ao nobre ofício da barbearia, suas tesouras permaneceram afiadas, as lâminas da navalha em fio, até seus últimos dias de vida. Berto deixa viúva Leonilde Marques de Souza Tonussi, com quem esteve casado durante 64 anos, o filho José Roberto, casado com Maria Giuzio (professora de piano Mariazinha), netos e bisnetos.
  
A Barbearia Tonussi estava instalada em um espaço adaptado, criado em sua casa na rua Baronesa Geraldo de Rezende. Antes da mudança, um dos seus endereços mais conhecidos foi na Rua Expedicionários, em frente ao Banco Caixa Econômica. Neste local, a Barbearia permaneceu quase 20 anos.
  Sem herdeiros na profissão, o último Tonussi barbeiro encerra 91 anos de história comercial, iniciada pelo patriarca João Tonussi, com a abertura do salão na Avenida Esther em 01 de maio de 1926.

SALÃO DE BARBEARIA TONUSSI E FILHOS
  No fim do século 19, chega na região do bairro Capela, o casal de imigrantes italianos Santa Carandina e Ferdinando Tonussi. Traziam na bagagem a esperança de uma nova vida, como também os objetos que transformariam a história da família: pente, tesoura e uma navalha.


As mãos calejadas pelo árdua trabalho nas lavouras de café, ensinam as primeiras lições de barbearia ao filho João. Apaixonado pelo ofício, o jovem começa a cortar cabelo, barba e bigode dos colonos nas fazendas próximas ao sítio da família.
Em uma passagem na Villa de Cosmópolis, João recebe uma proposta comercial do barbeiro Isidro Sanches. O imigrante espanhol iria para São Paulo, colocando à venda sua antiga barbearia na Avenida Ester.

A clientela já era fixa, o salão muito bem montado e localizado, dois quarteirões da Estação de trens da Sorocabana, abaixo da Igreja Matriz de Santa Gertrudes. O local exato, ficava entre os atuais banco Santander e Bradesco.
Recém casado com Inês Antoniolli, João decide vender tudo que tinha para comprar a barbearia, começando uma nova vida na Villa. Sua decisão foi criticada pela família, sendo considerado como louco e aventureiro.

Livro caixa da Barbearia Tonussi, o famoso caderno de contas . O livro marca a inauguração do salão em 1926


 Para melhor atender os clientes, embarca para São Paulo, onde faz um aperfeiçoando na capital. Em pouco tempo seu trabalho começa a ser reconhecido, tornando-se destaque entre as várias barbearias da Villa de Cosmópolis.

O movimento, principalmente no sábado (dia de folga dos colonos da Usina), formava enormes filas na pequena barbearia, a clientela aumentava a cada dia. João decide ensinar aos filhos o oficio de barbeiro.

Eram oito filhos homens, todos aprenderam a cortar cabelo e afeitar barba e bigode, como dizia na época. Inicialmente acompanham o pai, os filhos Fernando, Pedro e Ponciano Tonussi.
Na Avenida Ester, esquina com a Rua Santa Gertrudes, João compra uma outra propriedade, na qual inaugura a nova barbearia. Neste local, atualmente funciona a Sorveteria Palácio.

BARBEARIA E ELETRÔNICOS
 Os filhos começam a seguir outros rumos, aperfeiçoando-se em novas profissões. Impulsionado pelos irmãos José e Ponciano, que aprenderam eletrônica acompanhando as publicações da “Revista Carioca”, Pedro e Fernando tornando-se habilidosos técnicos.
Ponciano começa a trabalhar como funcionário público na Coletoria Estadual.

José muda-se para São Paulo, onde estuda e dedica-se totalmente ao conserto de rádios e televisores.Acompanhando o irmão seguem Pedro e Fernando, voltando formados para Cosmópolis, onde inauguram a primeira oficina técnica da cidade.

Pedro e Fernando são considerados os pais da eletrônica em Cosmópolis. No passado, os irmãos eram referências regionais no conserto de televisores, rádios, vitrolas, grafonolas e na instalação de antenas e, até, na fabricação de aparelhos de rádios.
Em 1947, aos 16 anos, iniciava oficialmente na profissão um dos irmãos mais novos, era o jovem Roberto. Ao lado do pai, Berto Tonussi criava suas próprias técnicas, conquistando clientes e aumentando a freguesia.

O jovem mostrava agilidade nas mãos, tinha o pulso firme e olhar atendo a cada detalhe no corte. Predicados que o acompanharam nos 70 anos de profissão

BERTO DOS CABELOS, BARBAS E BIGODES
 Com o falecimento do pai, a inevitável partilha dos bens entre os irmãos, o imóvel da Barbearia era então vendido.

Berto seguia com a barbearia em novos endereços, trabalhando sempre nos arredores da sua querida Avenida Ester, seu berço de nascimento e profissão.
Nas mudanças acompanhavam seus objetos de profissão e os centenários móveis, como as cadeiras da Irmãos Campanille. Em seus confortáveis acentos de couro puro, suas habilidosas e precisas mãos fizeram a cabeça de gerações de cosmopolenses.

Construídas em ferro forjado e madeira nobre, possuíam ricos entalhes no madeiramento, com destaque aos adornos, como os icônicos pés de leão em bronze. No lado direito, ficava pendurado o couro de anta, utilizado para manter o fio da navalha.
Nas penteadeiras, pintadas no famoso tom azul Usina Esther (alusão a cor dos madeiramentos das casas de colonos), suas inseparáveis ferramentas de profissão.

Objetos, utensílios utilizados pelo hábil barbeiro nos 70 anos de profissão


 Sempre organizados com total esmero e minúcia, ficavam tesouras especificas para os mais diferentes tipos de cabelo e acabamento, borrifadores de água e talco, pentes feitos de baquelite e osso, escovas de limpeza e pincéis confeccionados com crinas de cavalos.
Para fazer a típica espuma de barbear, um pequeno recipiente esmaltado, onde uma resistência esquentava a água e preparava o produto.
Seguindo as exigência sanitárias, a navalha virou decoração, utilizando somente laminas Wilkinson descartáveis. A modernidade também aposentou a máquina manual de corte, dando lugar para a motorizada com vários níveis.

Nas gavetas, com puxadores em acrílico ornamentado, os aventais do cliente (“segura cabelo”), toalhas para secagem e compressa quente de rosto. Entre os espelhos bisotes, onde o cliente observa o mestre, várias prateleiras de vidro.

Em cada espaço, ficavam expostos os produtos para afeitar a barba e bigode, como colônias, loções, alfazema, cremes e enormes frascos de álcool, utilizado para desinfetar os objetos e limpar as mãos.
Nesta penteadeira, em lugar de destaque o velho radinho Motobras, sempre sintonizado em uma emissora de notícias ou programas esportivos. Em um banquinho, inúmeros revistas e jornais esportivos, e a última edição do semanário local, a Gazeta de Cosmópolis.

Na penteadeira, um grosso livro de capa dura, com as folhas amareladas pelos mais de 80 anos. A caderneta de cortes, onde eram registrados os “fiados” da barbearia, costume na época. Nas páginas, dezenas de clientes, ilustres cosmopolenses que hoje nomeiam ruas, avenidas e praças públicas.

Ainda mais preciso que as mãos do mestre barbeiro, eram as horas marcadas no secular relógio Jugmans, pendurado em lugar de evidência. O badalar a cada quinze minutos, ecoado do imponente relógio por todo o salão, registrando o tempo e sua agilidade nos cortes.


Em cada espaço, pedaços da história comercial da família. 


AO BARBEIRO E AMIGO
 Os doutores de medicina utilizam o jaleco branco como um símbolo na sua profissão. Em Cosmópolis, o jaleco branco vestiu durante 70 anos, um dos maiores Doutores na profissão de barbeiro.

Fez parte de uma geração de cosmopolenses praticamente extinta, onde os filhos da terra, honravam sua cidade em todos os setores da vida.

Homem de modos simples, extremamente tímido e reservado, aprendeu somente o básico no Grupo Escolar de Cosmópolis, mas era um renomado mestre na faculdade da vida.
Bacharel em cabelo, barba e bigode, doutor em psicologia.


Sim, igual ao psicólogo em seu consultório, ouvia com paciência as aflições, amarguras e alegrias de cada cliente.

Desconhecia classes sociais, não existia rico ou pobre na barbearia, sentado em sua cadeira todos eram majestades. Até doía a coluna e as panturrilhas, mas atendia com a mesma qualidade no fim do dia, o último como fosse o primeiro freguês.

Vai em paz estimado profissional e pai de família. Por mais que o cabelo, barba e bigode cresçam, sempre estará na cabeça do povo cosmopolense. Adeus Berto Barbeiro...

Texto e fotos Adriano da Rocha
 

quarta-feira, 7 de junho de 2017

RESISTINDO AO "PROGRESSO" CANAVIEIRO


SIM, UMA COLÔNIA AINDA PERSISTE
 Texto Adriano da Rocha
Fotos Paola Marques

Resistindo ao "progresso" a Colônia do Sobrado Velho é a última existente em Cosmópolis


   Uma feliz surpresa que afaga os corações da colonada. “Ainda”, resiste ao falso progresso canavieiro as últimas casinhas coloniais da Fazenda Usina Esther. Para alegria dos nossos olhos, principalmente dos corações, recebemos imagens feitas no domingo (04), registrando a derradeira colônia.

Os “clicks” foram feitos por Paola Marques, captando com muita sensibilidade, o grupo de casas que persiste há quase 100 anos o avanço dos canaviais.

A Colônia chama-se Sobrado Velho, alusão a um velho sobrado existente na região. Segundo a lenda, a histórica construção abrigou o Rei Dom Pedro II e sua comitiva, na passagem que a família real fez à caminho de Piracicaba. A descrição do local faço neste texto. Sentado em um dos degraus da alta soleira da casa, foi perguntado ao morador o nome da colônia. Com um sorriso franco ele disse: “Já foi algum nome no passado, hoje o nome exato é nosso lar”.


Nos caminhos do Salto Grande

 
Imponente flamboyant é destaque na paissagem

Caminhos estreitos, entre barracos e muita cana, seguem para Americana na centenária estradinha canavieira. O chão é de terra batida, cascalhada e até bem cuidada, sinal que as colheitadeiras e caminhões de cana transitam sempre na estrada.
Um gigantesco Flamboyant marca o principal acesso as casas, suas raízes saltam do chão. Em seus frondosos galhos um balanço, feito com cordas e um pneu usado. Duas tábuas de peroba usam as raízes como base, é um banco improvisado, com certeza feito por amigos, onde na sobra da árvore “matutam” conversas infindas sobre a vida.
Quem viu nos últimos anos a demolição de mais de 200 casas, colônias do Bota Fogo, Quebra Canela, Saltinho, Cooperativa, e até mesmo o lendário Sobrado dos patrões, ficará emocionado ao ver essas casinhas.



119 anos de história
 
O mesmo projeto elaborado por Ramos de Azevedo  foi seguido em todas as colônias da Usina Esther


As casas seguem o projeto colonial de 1898, elabora pelo renomado escritório de Arquitetura e Engenharia Ramos de Azevedo. A construção é simples, casa de colono não tem luxo, todas as edificações seguem a mesma concepção e material.
Os tijolos são todos aparentes, grandes e vermelhos, feitos de terra “massapé”, na mesma olaria que edificou a Usina Esther e a primeira Igreja Matriz de Santa Gertrudes.


Nas janelas e portas um marcante destaque das coloninhas, tijolos assentados na transversal, um charme na modesta construção. No alto dos telhados, entre as telhas portuguesas, gigantescas antenas parabólicas, trazem um pouco de modernidade ao isolado lugar.

O quintal é imenso, existindo em algumas casas velhos poços d’água (a maioria inutilizado), plantações de hortaliças, legumes, pequenos parreiras de uva e figo, e é claro as icônicas jabuticabeiras.




Azul coloninha
O tom azul no madeiramento das portas e janelas  é a cor marcante nas construções
 
As pesadas portas e janelas, lavradas em madeira de lei (peroba rosa, jacarandá paulista e pinho), conservam o mesmo tom azul claro. A cor padrão das construções na época áurea da Usina, hoje a cor é o símbolo da saudade entre os colonos.

Na entrada das casas muitas plantas e pequenas árvores, sempre ao gosto de cada morador. Em cada casa um capricho diferente no pequeno jardim, formado entre a rua de terra batida e o calçamento das casas.

 
A variedade de flores vai do gosto e capricho de cada colono

Espalham-se pelo chão e seguem crescendo subindo sem destino, flores como craveiras, roseiras, orquídeas do mato, cosmo laranja (popular flor do mato), crista de galo, entre uma infinidade de espécies e aromas, que desabrocham e perfumam todo ambiente.

Mini roseira em flor contrasta entre a parede de tijolo à vista



QUAL SERÁ A DESCULPA DESTA VEZ!!!

Será que sonhei demais, viajei nas lembranças ao escrever esse relato?! Não, com extrema felicidade pode garantir, as palavras descrevem perfeitamente esse “paraíso” perdido.
Você que não é nascido aqui, neste chão cosmopolense pode até dizer: “Mano, você exagerou chamar isso de paraíso”.
 

Mas amigo de outras terras, pode ter certeza, quem aqui nasceu ao ver essas imagens a palavra exata será paraíso.

As lembranças marcantes vividas nestas modestas casinhas, transformam a derradeira colônia, em um local ainda mais perfeito que qualquer outro paraíso do mundo.

Relatei com o olhar da alma, descrito pelo coração, e como diria um colono: “Tudo é igual como antes, o “disgranhento” “progresso” ainda não passou por lá “.

A colônia ainda existe, e agora José qual será sua desculpa e empecilho para não preservar??!!




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terça-feira, 6 de junho de 2017

LUTO COSMOPOLENSE

ADEUS TONINHO DO RANCHÃO  
Texto adriano da Rocha
Fotos Acervo família Leoni
 



  Cosmópolis dá adeus ao filho que marcou a história de inúmeras gerações, principalmente os eternos jovens dos anos de 1970 e 80. Criador de um projeto comercial simples, sem muitos recursos, que inovou, mudou costumes e tornou-se referência regional da cidade, a Lanchonete e Restaurante Ranchão.

Faleceu no início da noite de segunda-feira (5), aos 71 anos de idade, Antonio Carlos Leoni, o popular Toninho do Ranchão. O corpo aguarda os amigos para última despedida no Cemitério Municipal da Saudade, onde às 16 h será feito o translado ao Crematório dos Amarais, em Campinas.
 
Ilustre personagem cosmopolense 

No fim dos anos de 1960, época de revoluções na política, música e costumes, o jovem Toninho Leoni, filho de percursores do transporte em Cosmópolis, resolveu fazer a sua revolução na cidade. O trabalho no comércio da família, a Auto Viação Cosmópolis, não era a predileção do jovem, que via na nova fase da cidade, uma excelente oportunidade comercial.

A pequena cidade transformava-se com a construção em Paulínia da Refinaria do Planalto, a Replan. Milhares de imigrantes chegavam em Cosmópolis, a cidade neste período despontava como um berço para os operários da gigantesca obra, a qual nascia como a maior refinaria da Petrobras no Brasil.
Cosmópolis crescia rapidamente as margens do progresso de Paulínia, antigos barracões dos áureos tempos das tecelagens, casas comerciais, velhos armazéns, eram transformados em hospedarias, pensões e hotéis.

Inovação para os jovens
Para atender a gigantesca demanda de novos moradores, surgiam lojas de roupas e calçados, e muitos bares. Mas, e o divertimento para os jovens na época, que assim como a cidade mudavam seus costumes!?

O divertimento seguia os costumes do interior paulista, dos tempos da velha guarda, algo já “maçante” como dizia a jovem guarda.

A moçada tinha como divertimento dar voltas nos jardins da Praça do Coreto, ouvir e oferecer músicas no serviço de alto falantes, assistir filmes no Cine Theatro Avenida, e reunir amigos para conversar nas esquinas da Rua Campinas, Santa Gertrudes e no largo da Matriz.

Sempre visionário e empreendedor, Toninho resolveu investir tudo que tinha pensando neste público, que jovem como ele, não tinha opções na cidade. Quem tinha carro, raras exceções, buscava divertimento em Conchal, Campinas e até Andradas, movimentando os comércios destas cidades.

O Ranchão da Avenida Ester
O registro do início dos anos 1990, mostra o Ranchão antes do incêndio que destruiu parcialmente o local
 
Com ajuda de amigos e da família, o sonho tornava-se realidade. Em um amplo espaço inutilizado, que no projeto inicial da Villa de Cosmópolis seria uma rua, o novo comércio nascia.

A construção era simples, chão de cimento queimado entre cacos de cerâmica, paredes de tijolo à vista com janelões, vigas de madeira e cimento formavam a estrutura, coberta com telhas de cerâmica e canaletão de amianto. Um verdadeiro rancho paulista, mas pelo tamanho do local, surgia o nome Ranchão.

Lanchonete, restaurante e ponto de encontro
O ambiente era dividido, com espaço reservado para lanches rápidos (preferência dos jovens) e refeições familiares. No enorme salão, contrastavam as disputadas mesas e cadeiras fixas de cimento (iguais às de praças), entre mezaninos de madeira e aço, fornecidos pelo depósito de bebidas do Odair Sala, com o inconfundível logo da Companhia Antárctica.


Nas paredes o inconfundível relógio da Cachaça Velho Barreiro, chamativas propagandas em neon dos cigarros da Souza Cruz e Philips Morris, entre placas de aço da Coca Cola, Fanta Laranja e guaraná Brahma. Outro chamativo na época, era a facilidade da cerveja em lata, então comercialidade pela Skol.

O cardápio era diverso, opções não faltavam para todos os gostos, o cliente escolhia de uma gostosa porção de provolone à milanesa com filé, calabresa acebolada, peixes e frios, aos enormes pratos feitos servidos no almoço e jantar. A padaria Santo Antonio, do Octacílio Padeiro, logo a frente, fornecia os pães especiais para o preparo dos lanches. 

Propaganda do Ranchão no semanário Jornal de Cosmópolis, edição de 1987

 O Ranchão inovava ao mudar o pão de baguete (pão francês comprido), ao montar os lanches no sistema americano, o pão de hambúrguer que conhecemos hoje, uma sensação na época.
Comida, bebida ao som de sucessos ao vivo
 

O tempero caseiro, tipo de mamãe da Usina Esther, os hamburguês feitos artesanalmente, a maestria do Toninho na chapa, assim como no preparo de “coquetéis” e batidas, combinavam perfeitamente com o principal chamariz do Ranchão: a música ao vivo.

Na concepção do espaço, o atrativo aos jovens era a música, apresentada por bandas, cantores e grupos vocais de Cosmópolis e região.

No palco projetado com destaque nos fundos, a acústica era amplificada em todo salão, as apresentações aconteciam de sexta à domingo. Sempre eclético, o palco recebia de artistas consagrados do Blues nacional, pop Rock, samba e sertanejo.
Mas com certeza, a maior alegria do Toninho eram os novos talentos, que tinham no Ranchão sua primeira oportunidade de mostrar sua música.


O fim do Ranchão
Durante quase 20 anos, a Lanchonete e Restaurante Ranchão, foi uma das principais referências cosmopolenses na região. Ponto de encontro de gerações, divertimento para jovens e famílias no fim de semana, local que aproximou casais e uniu corações, assim como a primeira oportunidade de emprego de muitos jovens.


O fim material, já que na memória sempre irá existir, aconteceu depois de um grande incêndio que destruí parcialmente as instalações no fim dos anos de 1990.

O declínio com o incêndio, as constantes crises financeiras brasileiras, fez o ponto comercial ser arrendado, Toninho deixava então a direção do Ranchão. As atividades do lendário Ranchão encerram anos depois.

Demolido no início dos anos de 2000, no local foram construídas pequenas lojas comerciais.
 
O incêndio que virou causo popular 
O fatídico dia trouxe enormes prejuízos ao empresário, mas também gerou um causo que entrou para história popular de Cosmópolis. Toninho, sempre bem humorado, recordava dando risada de um triste engano que aconteceu no dia.
A cidade por não possuir uma corporação de Bombeiros, o único atendimento emergencial no combate à incêndios era prestado voluntariamente pela Usina Ester (continua a mesma coisa há mais de 120 anos).

Ao ser acionada a ajuda na Usina, a pessoa aflita gritava no telefone que o Ranchão estava pegando fogo. Prontamente as equipes da Usina seguiram com destino ao Ranchão, mas não o restaurante, e sim a Colônia do Ranchão, distante quilômetros da sede industrial da Usina.

Em tempos que não existia celular, e muito menos telefone fixo em Colônia, o diretor recebeu os funcionários gritando: Pelo amor de Deus corre que é no Ranchão Restaurante na Avenida Ester, e não na Colônia do Ranchão da Usina. Nas idas e vindas, quando a equipe chegou no local, o Ranchão estava parcialmente consumido pelas chamas.

Adeus Toninho do Ranchão
Aos familiares e amigos, os meus sinceros sentimentos e está modesta homenagem póstuma.

O velho Toninho do Ranchão, tenham certeza fez sua parte, deixando importantes páginas em nossa história comercial, mas principalmente na vida de milhares de cosmopolenses.
Boêmio assumido, nunca teve medo de arriscar tudo que tinha em seus projetos, viveu intensamente sua passagem na terra.
Foi empreendedor, visionário, lutou com a vida para viver o seu modo de vida.
Deixou filhos, familiares, amores e muitos amigos, ficando aqui marcantes histórias que sempre serão perpetuadas em nossas lembranças.

Vai em paz Toninho do Ranchão, vários amigos já aguardam sua chegada no reino do Criador.

Fotos Acervo família Exel Leoni

terça-feira, 16 de maio de 2017

DIA DO COMERCIANTE



  Todos podem ter um comércio , mas poucos serão comerciantes. Entre os ofícios criados pelo homem, exerce o comerciante um dos mais nobres.
Seu trabalho é abdicar da sua própria vida, somente será bem sucedido o comerciante que fizer essa difícil escolha, transformando assim sua existência no mundo.

Nesta escolha, necessária na profissão, o comerciante servirá com sua própria vida, para assim trazer vida a outras vidas. Complicado!!! Sim , por isso poucos serão comerciantes.

Hoje, dia 16 de maio , data consagrada ao comerciante, entre as mais antigas profissões da humanidade .
Ao comerciante cosmopolense , das mais infindas áreas de vendas e prestações de serviços, ao patrão de si mesmo até o comerciário, a saudação nesta data.

Na lembrança meu pai , Juvenil da Rocha , saudoso comerciante cosmopolense, popular Rocha. Em 2014, marcava 62 anos de sua existência dedicados ao comércio da "Villa". Uma honrosa vida comercial, história iniciada por seu avô nos idos do século passado, a qual perpetuo com minha vida nesta mesma profissão.

Na memória e saudade, o querido Berto Barbeiro, 70 anos de barba, cabelo e bigode. Foi em 2017, o mais antigo comerciante em atividade, que somente a morte no fim do mês de junho, fez sua tesoura parar.

Nesta homenagem, registro aqui os três comerciantes cosmopolenses mais antigos em atividade.

1:Thelmo de Almeida , popular Thermo Barbeiro ( 67 anos de profissão). Com certeza você lembra do velho "Salão Simões e Almeida" na Rua Campinas, inaugurado naquele ponto no fim dos anos de 1940, por Benjamim Simões de Almeida, pai do Thelmo.
Com a venda e demolição do prédio , desde o início dos anos 2000, Thelmo atende em sua residência na região Central.

2: Milton Davinha, icônico "Mirto" do Bar e Mercearia Davinha, apelidado pela nova geração como "Belezinha", alusão pelo jeito único de chamar os fregueses : "olá , tudo belezinha!!?". Mais de 60 anos de balcão, história iniciada ao lado do irmão Cipriano, já aposentado, na Rua Santa Gertrudes.

3: Doroti Morelli, a querida Doroti da Loja de armarinhos. Ela até muda de assunto , vaidosa e muito reservada, não gosta de falar de idades e tempo de balcão. Mas, depois do Mirto, é a segunda comerciante mais antiga em atividade da Avenida Ester. Ponto comercial inaugurado por seus pais, no início dos anos 1900. Inicialmente criada como uma sapataria, acompanhando o progresso e novas tendências, tornou-se loja de armarinhos e tecidos a quase 60 anos.

4: Essa posição é em dupla, Hidelbrando Bernachi, o popular Brandão da Papelaria , e Terezinha Bernachi. O casal está com quase 50 anos de vida comercial.
Como não lembrar da Papelaria Santa Teresinha !! Foram mais de 30 anos na Avenida Ester, e atualmente seguindo aos 20 anos na rua Monte Castelo.

Ao comerciante cosmopolense
  Saúde física e principalmente mental são os sinceros desejos à você comerciante.
Como também a proteção divina, já que infelizmente e vergonhosamente, o comerciante cosmopolense enfrenta uma fase nada fácil de insegurança na cidade .

Quem sabe o atual Secretario de Segurança, Carlos Cavagnini, comerciante de profissão, pai e filho de comerciante (o terceiro mais antigo da Avenida Ester), não comece a olhar com outros olhos essa situação comercial de Cosmópolis. Por que senhor Secretário, não está nada fácil persistir sem segurança sendo comerciante em Cosmópolis.

Fé em Deus para exercer o ofício com saúde , e constantes orações pedindo segurança dentro e fora do comércio...

sexta-feira, 12 de maio de 2017

LUTO COSMOPOLENSE

ADEUS AO PROFESSOR ELO
Texto Adriano da Rocha
Fotos acervo familiar 

  É triste mais é verdade, assim no repente, quisera que fosse mentira. Não acreditando, assustados com a impactante e triste notícia, Cosmópolis amanheceu ouvindo: o professor Elo faleceu.

 A morte veio buscar aquele que dedicou sua existência a ensinar as traduções e conjugações da palavra vida. Aos 72 anos de idade, faleceu Elo Augusto Ketelhuth, na madrugada desta sexta-feira (12). Seu corpo aguarda amigos, irmãos e alunos para última despedida na Loja Maçônica 31 de Março, localizada na Rua Antonio Carlos Nogueira, nº 1860, próximo a saída para Paulínia.
O sepultamento será realizado às 17 horas no Cemitério Municipal da Saudade, o enterro em terras cosmopolenses atende um pedido feito por Elo. Casado com a também professora Sueli de Castro Ketelhuth, o casal teve três filhos, Isabella, Luís Augusto (Guto) e Eduardo.

O COMEÇO DA HISTÓRIA
   Elo nasceu em Andradina, a famosa cidade do Rei do Gado, filho de ilustre família da região, foi criado na nipônica cidade de Pereira Barreto. Assim como muitas famílias de imigrantes, os alemães Ketelhuth escolheram o estado de São Paulo para começar uma nova vida.

O início da sua história no magistério começou no auge do Regime Militar, na década de 1960. Tempos difíceis e complicados, principalmente para um jovem professor que não temia ensinar sobre liberdade de expressão.
Enfrentou o Regime usando como armas a caneta e o papel, sua artilharia era pesada e certeira nas palavras, não temendo patente ou oligarquias.

Neste período sofreu imposições na sala de aula, certas perseguições por suas convicções políticas, mas nunca desistiu da luta pelo pensamento livre. Assim dedicou 50 anos da sua vida a formar brasileiros mais pensantes sobre o Brasil.

COSMOPOLENSE POR ESCOLHA
   Em 1975 nas “trincheiras” da expressão em tempos de ditadura, conheceu a jovem professora Sueli de Castro. A união nascia nas salas de aulas, nos encontros estudantis, perpetuando-se em um exemplar matrimonio que durou mais de 40 anos.

A filha de Pereira Barreto, ao lado do esposo e filhos, escolhiam Cosmópolis como sua nova terra, um berço para criar seus filhos e educar outros filhos. O início dos anos de 1980 marcam sua chegada em terras cosmopolenses.

Com muito orgulho Elo dizia: “Cosmópolis é a terra que escolhi para ser minha mãe, e meu dever como filho é sempre respeitar, defender e lutar por essa jovem senhora tão sofrida”. Sua história em Cosmópolis é marcada por inúmeras memoráveis páginas.

O MESTRE DE MILHARES DE ALUNOS
   Lecionou na maioria das escolas estaduais e municipais de Cosmópolis, sendo 30 anos dedicados exclusivamente as salas de aulas. Criou um método único nos meios de ensinar o português, usando músicas, quadrinhos, transformando livros do passado em novos clássicos no presente. O habilidoso professor tinha paixão pela matéria, esse amor pelas palavras contagiava os alunos.
Rígido e ao mesmo tempo brincalhão, com a fala mansa e a sua inseparável varinha de madeira, formou e diplomou milhares de alunos.

LOJA MAÇÔNICA
   Chamado para Maçonaria, foi um dos precursores na criação da primeira Loja de Cosmópolis, a A.’. R.'.L.'.S.'. 31 DE MARÇO. Ao lado de pioneiros como Friederick Capraro, José Honorato Fozatti, Ulisses Barbosa Franco, entre outros irmãos de maçonaria, organizou com apoio da Prefeitura e Rotary Clube, a Feira Industrial e Agrícola de Cosmópolis, a lendária FIAC .
A feira que também foi organizado pela maçonaria em Artur Nogueira, Feira Industrial e Agrícola de Artur Nogueira (FIAAN), marcou época na região, sendo considerada uma das maiores festas do interior paulista.

A festa criada para arrecadar fundos para construção da Loja Maçônica, reunia no antigo Estádio Thelmo de Almeida os principais destaques da indústria e agricultura cosmopolense, sendo expostos aos visitantes destaques comerciais de cada expositor.

Ao fim de cada semana eram realizados grandes shows musicais, apresentando-se na feira ilustres nomes da época como os cantores Jessé, Sérgio Reis, Jair Rodrigues, Gretchen e as Melindrosas, Martinho da Vila, Chacrinha, Milionário e José Rico, Tonico e Tinoco, entre outros consagrados nomes da música popular.

Como membro da respeitável Loja 31 de Março, Elo exerceu diversas funções na edificação da irmandade, sendo reconhecido nacionalmente por seus trabalhos na comunidade maçônica.

HINO DE COSMÓPOLIS
   Em 2002, ao lado de Paulo Roberto Armelin, Elo escreve o Hino de Cosmópolis. Em um concurso realizado pela Prefeitura Municipal, a música concorreu junto com 5 outros hinos. Escolhida pela comissão organizadora, o hino escrito por Paulo Roberto Armelin (Paulinho da Papelaria) e Elo, foi oficializado como Hino de Cosmópolis em 30 de novembro de 2002.



AO MEU AMIGO
   Elo fez história em todos os lugares onde passou, em especial tivemos o orgulho deste mestre ter escolhido nossa cidade como sua nova terra. A tradução da palavra amigo, um sagaz e incansável parceiro nas pelejas políticas e “revoluções” cosmopolenses. Neste perfil e outros mais que fazem farte do Acervo Cosmopolense, o seu comentário sempre fazia a diferença nas minhas postagens.
Meu amigo de poemas que exaltavam nossa terra, conselheiro no português e nas matérias da vida. Um “parmerense” e cosmopolense de título e coração. Tinha um amor por Cosmópolis que chega a ser indescritível, lutava por essa cidade sem temer os adversários, mostrava fosse a quem fosse a sua opinião.

Assim nas suas escritas e “tecladas, surgiam textos memoráveis através do seu perfil, novas visões sobre questões políticas, assuntos do cotidiano, saudades e recordações.

Nas questões políticas foi um mestre, principalmente quando o assunto era política cosmopolense.

Nas manifestações organizadas neste perfil, como o veto ao aumento do número de vereadores e seus exorbitantes salários, o fim do pedágio, as mazelas do Hospital Santa Gertrudes, eleições municipais, em todas ações aqui iniciadas, era o Elo sempre o primeiro a tomar frente nos assuntos.

Dedicou sua vida a família e ao magistério, o mestre de milhares de alunos da rede municipal de ensino.

Estimado amigo, não tive tempo de voltar a “prosiar” contigo novamente, ficar horas conversando sobre nosso assunto preferido Cosmópolis.
Fica um até breve Elo, nossa prosa será ainda mais acirrada em outros planos. Agora vamos ter que redobrar as forças para fazer sua parte nesta luta. Descanse em Paz, o Criador tem agora um novo conselheiro para nos guiar neste emblemático universo...
Texto Adriano da Rocha

Poema Cosmópolis aos seus filhos
Letra de Adriano da Rocha e Elo Augusto Ketelhuth

sábado, 6 de maio de 2017

SHOW DE PRÊMIOS DA CASA

Tradicional Bingo da Casa da Criança no salão Paroquial da Igreja Matriz Santa Gertrudes 
 P.A.R.T.I.C.I.P.E

sábado, 22 de abril de 2017


   A 2• edição do maior festival gastronômico de Cosmópolis continua até domingo(23). Na Praça da Igreja Matriz de Santa Gertrudes os melhores foods trucks da cidade e região. 🍺🍔
Evento livre , com área de alimentação coberta (pode chover), apresentação de bandas de rock e pop music, e total segurança.
Evento organizado pela Casa da Criança de Cosmópolis, com apoio da Prefeitura e amigos da Casa. A renda da festa será revertida em obras na Casa da Criança. P.A.R.T.I.C.I.P.E, nossas crianças agradecem de ❤️
Foto Ulisses Paiva

segunda-feira, 17 de abril de 2017

FESTIVAL GASTRONOMICO


    A 2º edição do evento mais esperado da cidade está chegando. Em prol da Casa da Criança de Cosmópolis acontecerá nos dias 20,21,22 e 23/04 o “2º Food e Beer Truck”.
Na Praça da Igreja Matriz de Santa Gertrudes estarão os melhores Food Truck da cidade e região, oferecendo para você um verdadeiro festival de gastronomia e bebidas.

Todos os dias atrações musicais ao vivo, muito rock, pop music e blues no som de grandes bandas, apresentações de danças e grupos culturais de teatro. Na área de lazer, a diversão é com o famoso Virtual Roller Coaster, o Simulador de Montanha Russa.

Evento livre com total segurança e acessibilidade, praça de alimentação coberta e muitas opções para toda família.

A renda do evento será revertida em obras na Casa da Criança de Cosmópolis, sua participação é muito importante para nossas crianças. P.A.R.T.I.C.I.P.E
Mais informações e patrocínios: 3812-1611 / 3812-1119

quarta-feira, 12 de abril de 2017

109 ANOS DO MERCADÃO DE CAMPINAS

 Um marco comercial na história da região metropolitana 
Texto e fotos Adriano da Rocha

1910/ Trem da Companhia Funilense desembarcando na Estação do Mercadão de Campinas, então denominada Estação Carlos Botelho. No registro feito feita Casa Genoud, o cartão postal com circulação mundial, mostra o trem de passageiros vindo da Estação Barão Geraldo, uma das estações que antecediam a Estação de Cosmópolis

  Em 12 de abril de 1908, uma manhã de sexta-feira, há exatos 109 anos completados hoje, a Prefeitura de Campinas tomava posse do Armazém Agrícola da Companhia Carril Funilense. Depois de meses de reformas e adaptações, o prefeito Orozimbo Maia oficialmente inaugurava naquele local o Mercado Novo, o popular Mercadão de Campinas.
Surgia uma das mais importantes referências comerciais do Estado, um marco histórico não apenas de Campinas, mas na vida de milhares de pessoas da região. A verdadeira história deste magnifico prédio é quase desconhecida, assim como suas raízes com o surgimento da Cia Funilense e da cidade de Cosmópolis.


O INÍCIO DA HISTÓRIA
Localizado na baixada campineira, antiga região central, a edificação foi construída em posição estratégica, próximo as estradas que ligavam Campinas as Fazendas Santa Genebra, Rio das Pedras, São Quirino, Moro Alto (Paulínia), e Funil (Cosmópolis), propriedades dos fundadores da Funilense, Barão Geraldo de Rezende, João Manuel de Almeida Barbosa e família Nogueira.

A majestosa construção foi projetada pelo Escritório Ramos de Azevedo, a pedido do Barão Geraldo de Rezende (primo de Ramos) e da família Nogueira. A construção seguia um estilo arquitetônico que dominava a Europa, o Neoárabe. Linhas pouco vistas na Campinas do início do século 20, algo único e sem igual no interior. Campinas possuía cerca de 35 mil habitantes, distribuídos nas aéreas urbanas, rurais e distritos.
Inicialmente o prédio recebeu o nome de Luiz Nogueira Ferraz, importante fazendeiro e patriarca da família Nogueira (pai de José Paulino e Major Arthur Nogueira).

 
1910 / Um dos primeiros registros do Mercado Novo, o popular Mercadão de Campinas. Foto postal com circulação mundial feita pela renomada Casa Genoud de fotografia e impressos



PROJETO INOVADOR
O prédio com mais de 3 mil metros de construção, possuía extensa área de estocagem com capacidade para milhares de sacas. Ramos de Azevedo criou no prédio um sistema inovador de ventilação para época, preservando as produções agrícolas e mantendo um clima estável nas dependências do armazém.


Os detalhes arabescos na construção, como pequenas muralhas de um castelo medieval, visto apenas como ornamentos no prédio, constituem elaborado sistema de ventilação projetado por Ramos.
No alto dos telhados, entre as paredes de sustentação, várias saídas de ar feitas na alvenaria como janelas abertas, facilitam a entrada e a saída do ar. O mesmo sistema foi criado no Mercado Municipal de São Paulo, também projetado pelo arquiteto.

Na aérea externa do prédio, quase 7 mil metros quadrados, existia uma ampla aérea ferroviária, com estação destinada ao desembarque e estocagem das produções agrícolas, assim como aérea restrita ao embarque e desembarque de fazendeiros, barões e altos acionistas da Funilense.

Simultaneamente no mesmo período, os operários do Escritório Ramos de Azevedo construíam em Cosmópolis o complexo industrial da Usina Esther, o Sobrado Irmãos Nogueira (demolido em 2011) e a antiga Igreja Matriz de Santa Gertrudes (demolida em 1958). As obras em Cosmópolis eram todas projetadas por Ramos de Azevedo e, inspecionadas pelo nascente Escritório Dumont Villares, de propriedade da família do celebre inventor Santos Dumont.

DO INTERIOR PARA CAPITAL
A edificação servia como uma central de estocagem das produções agrícolas das fazendas pertencentes aos associados da Companhia Funilense. Os produtos estocados no local seguiam até uma estação no Guanabara, onde eram enviados pelos trens da Companhia Paulista para Capital, seguindo para o embarque e exportação em Santos.


Neste período o destaque principal era para o açúcar produzido nos engenhos da Usina Esther, puro sem refino, e o café em grãos das centenárias fazendas da região, transportados em gigantescas sacas confeccionadas de algodão. Outro destaque nos vagões puxados pelos trens, eram as produções dos núcleos coloniais da nascente Villa de Cosmópolis. Essa produção colonial, por ser perecível, era comercializada em Campinas e cidades circunvizinhas.

FUMO E ANANÁS ERAM OS DESTAQUES COSMOPOLENSES
As lavouras dos colonos germânicos, italianos e espanhóis, dos Núcleos Campos Salles, Floriano Peixoto, Santo Antônio e Nova Campinas, ganhavam notoriedade pela qualidade e a grande produção das terras. A agricultura dos núcleos tornou-se até cartão postal paulista no mundo, registros feitos por renomados fotógrafos como Guilherme Gaensly.


O destaque o cultivo do abacaxi ananás (região da Escola Alemã era a maior produtora), mandioca, algodão (Santo Antônio e Núcleo Floriano Peixoto) banana e fumo. Na produção de fumo, Cosmópolis chegou a ser uma das maiores produtoras brasileiras, mas com a expansão das lavouras de cana e o incentivo gerado pela Usina aos colonos, que tornavam-se fornecedores diretos da indústria açucareira, as lavouras foram sendo extinguidas.
 
 
2016/ Vista parcial do Mercadão de Campinas, no ponto do registro a entrada principal do complexo comercial projeto por Ramos de Azevedo


A VENDA DO ARMAZÉM
Dívidas exorbitantes com a prefeitura, inúmeros empréstimos não saldados, obrigavam a Funilense a desfazer de vários dos seus principais patrimônios. Os associados vendo o fim do sonho de criar a maior companhia carril agrícola do Brasil, começavam a abandonar o empreendimento. A prefeitura de Campinas e o poder público Paulista apertavam o cerco para o pagamento das dívidas. Ações e patrimônios da Cia eram vendidos para saldar dívidas, sócios vendiam suas partes para não ter seu patrimônio particular comprometido com as execuções fiscais.


Neste período a família Nogueira adquiriu parte das locomotivas de escoamento de produção, modernas máquinas importadas da Inglaterra, os populares trenzinhos canavieiros. No acordo feito pelo Major Arthur Nogueira, também eram adquiridas estações como a do Guatemozin, e áreas férreas construídas pela companhia nas terras da Usina.

Entre as execuções fiscais, uma marcava tragicamente a história da Funilense. Para saldar as dívidas da Funilense, o governo entrou com o pedido de leilão da Fazenda Santa Genebra, então propriedade do Barão Geraldo de Rezende, maior acionista da Cia. Em 01 de outubro de 1907, com 61 anos, o Barão cometia suicídio em seu escritório no Casarão da Fazenda. Um ato para não entregar a propriedade ao governo, a qual foi estabelecida como garantia das dívidas da Funilense.

Para quitar as várias dividas com a prefeitura e a Câmara Municipal de Campinas, o prefeito Orozimbo Maia adquiriu o armazém da Funilense, transformando o local em mercado de abastecimento agrícola, o novo mercado de Campinas. Na reforma foram criados espaços para a comercializam de produtos, divididos em blocos, assim como uma estação de embarque e desembarque de passageiros, nomeada de Carlos Botelho.

 
2016/ Local onde existia a antiga estação de embarque e desembarque da Companhia Carril Funilense. Deste ponto o trem seguia até a Estação do Guanabara, seguindo novamente para a Villa de Cosmópolis

A FALÊNCIA E O FIM DA ESTAÇÃO
   Com a falência a Fulinense, os trilhos e estações foram incorporados a Companhia Sorocabana, sendo oficialmente estabelecida em 1921. No ano de 1924, o prédio do Mercadão de Campinas extinguia a antiga Estação da Funilense (Estação Carlos Botelho). Os trilhos da antiga estação que seguiam do Mercadão até a Estação do Guanabara, eram transferidos para outra estação em construção.

A mudança criada pela Sorocabana trazia um novo trajeto aos passageiros vindos de Cosmópolis e demais cidades da malha Funilense, sendo inaugurada em 1924 a Estação do Bonfim. A nova estação recebia os passageiros da antiga malha Funilense, sendo criada para a chegada do ramal de Campinas, vindo de Mairinque. No local da Estação da Funilense, foi criada pela prefeitura ponto de carga e descarga de produtos, transportados por carroças, charretes, troles e automóveis.
Próximo ao local, as jardineiras da Auto Viação Cosmópolis, Caprioli e demais empresas de transporte, utilizavam a aérea como ponto de embarque e desembarque de passageiros.


Texto e fotos Adriano da Rocha