segunda-feira, 19 de março de 2018

SÃO JOSÉ DOS TRABALHADORES DA TERRA

A DATA NA HISTÓRIA
Texto e fotos Adriano da Rocha
 Dia 19 de março, as ferramentas e maquinários, nas tuias ficavam guardadas. Nesta data, agricultor não trabalhava, o dia é consagrado ao Padroeiro, São José dos trabalhadores, São José da prosperidade nas lavouras.
Santinhos distribuídos nas celebrações em louvor à São José / Acervo Adriano da Rocha

  No passado, os devotos cosmopolenses, realizavam uma das mais lindas celebrações populares da fé católica local. A data não era celebrada com festas, quermesses, vendas de bebidas e alimentos, o dia amanhecia com orações, procissões, devoção e respeito ao Santo. Celebrações, que seguiam tradições dos tempos da colonização portuguesa, miscigenada, na fé dos imigrantes, nesta terra cosmopolita.


PROCISSÃO DE LAVRADORES
1949/ Carreiro João Paes e família, junta de bois e carro registrados na Rua João Aranha, próximo à Estação da Sorocabana, antiga Carril Funilense / Acervo Família Paes

 O sol ainda não havia nascido nos horizontes do Itapavussu, quando o som do zunir de carros de bois, acordavam a Villa de Cosmópolis. O rangir dos cocões, produziam o som único das cantadeiras dos carros, ecoando estridente dos morros e espigões, anunciando a chegada da procissão.

Em passos lentos e compassados, desciam as várias juntas de bois, pelas estradas de acesso as ruas da Villa. Na frente de cada carro, os “candieros”, com seus cumpridos ferrões, forjados de pregos dos dormentes da Funilense, seguiando “chibantes” e orgulhosos, conduzindo os bois de guia.

Charretes, carritelas, troles, carroças, cavaleiros e muleiros, acompanhavam a gigantesca procissão, vindos das mais distantes regiões rurais de Cosmópolis.

O som de tamboeiros e cocões dos carros de bois, sinuelos de bestas e mulas, trotes de cavalos, o bater dos cascos das dezenas de animais, acordavam os moradores de Cosmópolis, antes mesmo, dos sinos do campanário da Igreja Matriz de Santa Gertrudes.

Pessoas simples, com suas rudimentares conduções, sitiantes, lavradores e colonos, mãos calejadas unidas na fé ao Padroeiro dos trabalhadores, o intercessor São José, esposo da Virgem Maria, pai adotivo de Jesus Cristo.

FLOR DE SÃO JOSÉ
Margens do Rio Pirapitingui, Cachoeiras do Saltinho / Lírio do Brejo, Flor de São José, aroma das flores espalha-se por metros de distância / Foto Adriano da Rocha

Nos pranchões dos carros de bois, os soberbos carreiros ficavam imponentes, dividindo espaço com preciosas cargas. Eram gigantescos balaios de sementes, feixes de cana de açúcar, ramos de café, ramadas de algodão, frutas e cereais.
Cada lavrador, trazia na sua condução, os frutos do seu trabalho, sementes para serem germinadas, suas preces e graças alcançadas nas roças, agradecimentos e pedidos ao digníssimo São José.

Entre as cargas, uma em especial não podia faltar, um dos símbolos maiores da celebração popular. Com muito cuidado, capricho e esmero no transporte, a preciosa carga seguia no primeiro carro, abrindo caminhos, saudando São José.

O carro de guia, com dez cangas (20 bois), seguia na frente conduzindo a procissão dos lavradores. Ainda mais marcante que as cantadeiras dos carros, era o aroma da carga transportada.

Um cheiro indescritível, aroma doce, calmante e inebriante, fragrância que espalhava-se com a brisa da manhã, dominando as ruas de Cosmópolis.

Um gigantesco buquê de flores, ou como é conhecido popularmente, colônia de São José / Foto Adriano da Rocha

Eram as flores de São José, magníficos lírios brancos, as populares flores do brejo, nascidas nas barrentas margens dos rios Jaguari, Pirapitingui e Três Barras.
Vespertinamente, fiéis percorriam as barrancas dos rios, buscando as colônias de lírios, retirando não somente as flores, mas toda a gigantesca planta. Germinada com raízes profundas, na terra argilosa do brejo.
Colônia de Lírios formanda próximo das correntezas da Cachoeira do Saltinho / Foto Adriano da Rocha


As delicadas flores brancas, com sua exuberância e perfumes sem iguais, nasciam em “copadas” nas margens, formando gigantescas coroas sobre as águas. As flores, ornamentavam os andores de São José, enfeitavam os animais, as conduções, e maceradas com água, molhavam as escadarias da igreja, no trajeto da procissão, ‘’ assentavam” a poeira das ruas de terra.

Colônia de flores, mas também de inúmeros insetos hospedeiros, como formigas, borboletas e abelhas, buscando alimento no néctar das flores e ramagens. O beija-flor, "cuitelinho" como é paulistamente conhecido, fazem revoadas buscando o "doce" das flores / Foto Adriano da Rocha

Suas raízes, da mesma família do gengibre, os fiéis produziam um típico chá, servido no fim da celebração religiosa. O preparo, era semelhante ao quentão das festas juninas, porém, sem usar água ardente (pinga) e outras especiarias como cravo, somente água e açúcar mascavo.

MISSA CAMPAL
A antiga Igreja Matriz de Santa Gertrudes, projetada pelo “Escritório de Arquitetura e Engenharia Ramos de Azevedo”, comportava somente cem fiéis, confortavelmente sentados nos bancos. A grandiosidade da celebração, trazia a liturgia católica para as escadarias da Igreja, sendo realizada uma Missa Campal.

30/11/1944- Largo da Matriz de Santa Gertrudes em festa, comemorações da emancipação política e administrativa de Cosmópolis. Em destaque no centro, a extinta igreja projetada por Ramos de Azevedo / Foto Acervo Grupo Filhos da Terra


O modesto largo da Matriz, ficava repleto de fiéis, as ruas Alexandrina (atual Campos Salles), Ramos de Azevedo e Wienna (atual Santa Gertrudes), serviam como parada das inúmeras conduções e animais.

Neste período, a Prefeitura de Campinas, instalou a cada 2 metros de guias, pequenos argolões, que serviam para amarrar as rédeas dos animais. Somente os carros de bois, principalmente os carros de propriedades do senhor Germano Lange e família Paes, devido a quantia de juntas, ficavam aos pés da escadaria da Igreja. Estes carros traziam as coroas de lírios, usadas no andor de São José.

LAVAR OS PÉS DO SANTO
Santinho impresso na França, datado de 1902, em consagração a Sagrada Família / Acervo família Coutinho Nogueira, doação ao Grupo Filhos da Terra

Ao término da Missa Campal, a procissão seguia até o Ribeirão Três Barras, popular Baguá, onde eram molhados simbolicamente, os pés de São José. Neste ato, a tradição católica, confessava como uma prece, pedindo chuvas para as lavouras cosmopolenses.

Antes de seguir a profissão, o Pároco da Matriz, realizava as bênçãos nas sementes, alimentos e até nas ferramentas usadas nas lavouras e demais utensílios. Enxadas, foices, facões, chapéus, moringas d’água e caldeirões de refeições (marmitas), eram ungidos de água benta pelo sacerdote.

A procissão saia da Matriz, descendo a Rua Wienna (Santa Gertrudes), seguindo da Avenida Esther, até a Rua Nápoles (Rua da estação, atual Rua João Aranha), onde na região da atual Fábrica de Refrigerantes Furlan, existia uma ponte sobre o Rio Baguá.

13/08/1950 - Família Ferreira, em registro feito sobre a antiga ponte do Ribeirão Três Barras. Ponto de passagens, caminho de acesso para Limeira, referência em celebrações religiosas de "molhas pés". Foto Acervo Luizinho Ferreira 


Cânticos litúrgicos, misturavam-se com canções populares, a imagem de São José (a mesma existente na Igreja Matriz), tinha seus pés banhados. Neste mesmo ato, fiéis banhavam suas imagens no rio, nas águas do Baguá, lírios e raízes da planta, eram lançados nas correntezas e margens.

Voltando a Igreja Matriz de Santa Gertrudes, era servido o chá das raízes da flor de São José, enormes caldeirões dispunham de centenas de litros da bebida. A bebida típica da celebração popular, tinha seu preparo na madrugada do dia 19, reunindo dezenas de mulheres para limpar e descascar as raízes.

CURIOSIDADES DA DATA NO PASSADO
1904/ Major Arthur Nogueira (segundo cavaleiro) e um familiar não identificado / Foto  acervo Grupo Filhos da Terra


O Major Arthur Nogueira, proprietário da Usina Esther e responsável pela Chefatura de Polícia, decretava popularmente, que os trabalhos na Villa de Cosmópolis e Usina, iniciavam-se somente depois das 10h00, término das celebrações religiosas.

Devoto de São José, e patrono da Igreja Matriz de Santa Gertrudes, acompanha toda a celebração, chegando junto com os carreiros da Usina, montado no seu lendário cavalo preto.
Pequenos santinhos de São José, datados com os anos de 1938 e 1922 / Acervo Adriano da Rocha

Em devoção pelas graças alcançadas, grandes safras e colheitas, o Major e demais fiéis abastados financeiramente, distribuíam pequenos ‘’ santinhos”, impressos nas “Thipographias” campineiras, e casas Tipographicas francesas.

Até o ano de 1924, data de seu falecimento, a celebração ao São José, era considerado um feriado cosmopolense, sendo realizadas as celebrações, com apoio da Usina.

Texto e fotos Adriano da Rocha

Santinhos de São José: doações ao Acervo Cosmopolense, das famílias Toledo Silva, Lange Woord, Barbosa Frade e Rocha Zia

Em respeito a tradição da Quaresma, onde as imagens santificadas da Igreja Católica são cobertas em memória e luto pelo Cristo crucificado, não fizemos fotos da estatuária de São José da Matriz. A imagem existente na Igreja Matriz de Santa Gertrudes, é a mesma utilizada nas celebrações do início do século passado.

MISSA DE SÃO JOSÉ 
A celebração litúrgica à São José, será realizada na quarta-feira (21), às 19h30, na Comunidade São José. A comunidade está localizada no fim da Rua Max Herget, bairro “Baguá”, próximo ao antigo abrigo municipal de animais.

domingo, 11 de março de 2018

REDESCOBRINDO COSMÓPOLIS COM O “FOTO IN FOCO”

Texto e fotos Adriano da Rocha

 Estivemos na semana passada, conhecendo o foto clube “Foto In Foco”, projeto cosmopolense que busca redescobrir nossa cidade, atraindo olhares, resgatando nossas origens.

Percorremos juntos, lugares desconhecidos pela maioria da população, locais de histórias fascinantes, pontos seculares perdidos, com incrível potencial turístico e cultural.

Olhares sempre atentos, maquinas fotográficas em constantes “cliques”, e muito entusiasmo em redescobrir Cosmópolis. Assim destemidos fotógrafos, percorreram trilhas entre matas, rios e nascentes, caminhos rurais dos tempos do império, eitos e carreadores da Carril Funilense, trajetos pelos bairros do Coqueiro, Morro Amarelo, Caminho da Onça, Fazenda Batistela, Quilombo, Gruta, Matão e Saltinho.


Neste passeio de descobertas cosmopolenses, tivemos o apoio da Guarda Municipal, acompanhando todo trajeto pelas matas e acessos sinuosos, realizando até em alguns pontos, abertura com facão, para a livre acessibilidade de todos.

Estiveram presentes quinze pessoas, entre profissionais da fotografia, conceituados mundialmente, amadores, e modestos apreciadores da natureza, com seus celulares, o qual foi nosso caso.

Fomos muito bem recebidos, foram mais de seis horas de passeios e muitos registros fotográficos. O convívio com o grupo “Fotoclube Foto In Foco”, trouxe a certeza, que este projeto vai revelar “MUITA COISA BOA” de Cosmópolis.


O grupo é totalmente APARTIDÁRIO e sem interesses financeiros, criado da união de olhares e histórias, pessoas apaixonadas com muito orgulho, por Cosmópolis. Grupo formado por fotógrafos profissionais e amadores, dispostos a compartilhar experiências e técnicas, ensinando e aprendendo, como novos olhares, possam enxergar, visualizar e vislumbrar, o lado bom e positivo da cidade de Cosmópolis.

Sim, ainda possuímos bons motivos para sentir orgulho de Cosmópolis, o negativo é mínimo, ao ser comparado as nossas grandezas naturais, e o incrível e não explorado, potencial natural do município.

Redescobrindo e revelando Cosmópolis, aos cosmopolenses e o mundo, assim marca história registrando o presente, resgatando o passado para preservar o futuro, o grupo “Fotoclube Foto In Foco”. Parabéns pela nobre e respeitável iniciativa de seus criadores!!!



MAIS INFORMAÇÕES E COMO PARTICIPAR??
É fácil, basta entrar em contato pela página e preencher o formulário de inscrição. Todas as semanas passeios diferentes, cursos, exposições de fotos do grupo, viagens fotográficas, muito aprendizado sobre fotografia e Cosmópolis.
Tudo gratuito, sem custo de mensalidade, adesão ou interesse financeiro. Nos do Acervo Cosmopolense e Grupo
Filhos da Terra, já somos parte deste clube. Venha você também!!!

Link abaixo:



Texto e fotos Adriano da Rocha

sábado, 10 de março de 2018

LUTO COSMOPOLENSE

ADEUS PARAÍBA!!!

  Nordestino com orgulho, cosmopolense por amor e opção!!! Acaba de falecer o Paraíba, figura única da comunidade e política. Militante ao extremo do bom senso, Petista não roxo, totalmente vermelho.


Pai, avô, bisavô, chefe de família, uma das maiores da cidade. Quem não era filho de sangue, virava por amizade.
Ex vereador, conselheiro municipal e pessoal, figura atuante nos bastidores políticos, principalmente na esquerda. Presença marcante nas sessões da Câmara Municipal,opinante e participativo nas decisões da edilidade.
Foi um dos percursos do movimento partidário de oposição em Cosmópolis, auge do regime militar, estando entre os fundadores do PT municipal e nacional.

VELÓRIO E SEPULTAMENTO 
O corpo aguarda aos amigos para despedida, no Velório Municipal. O sepultamento será realizado neste sábado (10), às 16h30, no Cemitério da Saudade, em Cosmópolis.
Mais informações em breve !!!

Os sinceros sentimentos à família Sarmento, a gigantesca família Paraíba Cosmopolense. Nossas orações e prece🙏🏻


Texto Adriano da Rocha
Foto Acervo Familiar

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sexta-feira, 9 de março de 2018

LUTO COSMOPOLENSE

MEMÓRIA COMERCIAL
ADEUS LAÉRCIO MAGOSSI
Texto Adriano da Rocha
Foto Acervo familiar
Laércio Magossi, faleceu aos 66 anos de idade
  Uma vida inteira dedicada a sua paixão pelo ofício, onde foi aluno, professor e honroso patrão. Tradição comercial dos tempos do velho Mingo, seguida por seus filhos e netos, principalmente por este mestre “bicicleteiro”.

Cosmópolis despede-se de Laércio Magossi, o querido “bicicleteiro” da Villa. Laércio faleceu aos 66 anos de idade, na noite de quinta-feira (08). O velório e sepultamento, acontecem nesta sexta-feira (9)

VELÓRIO E SEPULTAMENTO
O corpo, aguarda os amigos para última despedida no Velório Municipal. O sepultamento será realizado às 15h00, no Cemitério da Saudade, em Cosmópolis. Laércio era casado com Sueli de Faveri Magossi, deixa os filhos Janderson, Evandro, Cristiano e netos.

"MAGOSSIS BICICLETEIROS" 
Bicicleteiro, com muito orgulho, sem ter receios ou frescuras, de sujar as mãos na graxa, ficar com as unhas encravadas de tanto consertar raios, desmontar e montar camaras, alinhar rodas, trocar suspensões e soldar aros.

Habilidoso nos serviços, seguindo a tradição dos saudosos pais, Dona Maria e Mingo Magossi, lendários personagens da “Villa Cosmópolis”.

O casal, trocou os arados, colhedeiras e enxadas, a dura vida nas terras do Núcleo Colonial e Nova Campinas, pela progressista rua comercial, a Avenida Esther.

Os descendentes de imigrantes italianos, mudavam o calejar das mãos, surgindo uma nova história para a família, edificada nas ferragens e bicicletas.

Entre a Avenida Esther e Rua Sete de Setembro, a casa comercial da família Magossi, o início dos “bicicleteiros”. O exigente e habilidoso Mingo, criava os filhos entre peças, parafusos, pneus e maquinários, trabalhando todos juntos.

A fama da família de “bicicleteiros” crescia, a pequena loja de ferragens do Mingo, mudava de endereço. A lendária edificação, onde funcionou até a “Casas Pernambucanas”, não era suficiente para prover os sonhos dos irmãos Magossi.

Visionários, queriam crescer materializando seus sonhos, o velho comercial do Mingo, renascia como a Sport Magossi. Marcante na vida de inúmeras gerações de cosmopolenses.

Entre a irmandade dos “lemões” Magossi, Laércio destacava-se pelo cuidado e zelo nos serviços. Consertava, montava e vendia todos os produtos da Loja, desde um simples parafuso, à moderna bicicleta barra forte circular.

Sua fala mansa, o jeito calmo, cativavam a freguesia, conhecia o cliente só pelo jeito de entrar na loja. Oferecendo serviços muito além do simples ou complicado conserto.

Laércio, mostrava ao cliente não somente a opção do conserto, mas também, as infindas opções de aprimorar a bicicleta, sempre, ao gosto do freguês.

Bancos com brasões de times, luvas de guidão com fitas, proteção de corrente colorida, buzina "fom fom" e campainha de tímpano, garupeira acolchoada para levar a namorada, pedaleira refletiva, retrovisor, “lameira” enfeitada...

Laércio tinha paciência em mostrar cada item da gigantesca lista de produtos, montando uma bicicleta única, customizada para cada cliente. Um trabalho feito em família, ao lado dos irmãos, esposas, noras, filhos e sobrinhos. Consertando e garantindo o serviço.

AO MESTRE BICICLETEIRO NOSSA HOMENAGEM
A tesoura afiada do barbeiro, o corte preciso no tesourão do alfaiate r costureira, o fio exato nos instrumentos da manicure, eram certeza de serviço bem feito, ao serem amolados pelo habilidoso Laércio.

A bicicleta da garoupeira alta, enfeitada com capricho pelo Laércio, era a sensação ao passar próximo das moças nos Jardins do Coreto.

A imponente bicicleta, com sua barra forte, dois bagageiros reforçados, que levavam as compras do armazém , ao entregador de jornais, quando não era vendida pelo Laércio, passava por suas mãos no conserto.

A primeira bicicleta, ainda com rodinhas de apoio, reforço especial ao pequeno cliente, as reminiscencias dos pais, que na infância passaram na loja, são lembranças vivas nas histórias de milhares de cosmopolenses.

Recordações dos irmãos Magossi, lembranças cosmopolenses do mestre Laércio “bicicleteiro”. Sua figura estará sempre viva, com seus cabelos brancos, a típica pele rosada germânica, o jeitão reservado e ao mesmo tempo brincalhão, eternas marcas deste ícone comercial.

Patrão exigente, e ao mesmo tempo amigo e professor, quantos empregados ao saírem da "casa Magossi", abriram sua própria loja de peças e consertos. A paixão do Laércio “bicicleteiro”, formou filhos, perpetuando seus sonhos e memórias.

Os filhos seguem o caminhar do pai, ou no caso, o pedalar da família de “bicicleteiros”. História comercial e familiar, escrita com muito orgulho, nas páginas do volumoso “livro”, chamado cidade de Cosmópolis.

Os vizinhos de comércio, tantos já falecidos, amigos de décadas de Avenida Esther, aguardam sua chegada Laércio.

Dona Maria e o velho Mingo Magossi, já reservaram um lugar especial para seu filho, ao lado do Pai.
Rogai por seus filhos e amigos, não esquecendo da sua querida Cosmópolis...


Foto acervo Familiar



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quinta-feira, 8 de março de 2018

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


 MULHERES COSMOPOLENSES

A primeira jornalista de Cosmópolis
Silena Sousa, de 83 anos, já passou desde a sala de aula até a redação do Jornal de Cosmópolis


Texto Bruna Genaro
Fotos Adriano da Rocha / jornais Acervo Cosmopolense
Silena Sousa, foi durante 18 anos, uma das principais jornalistas  do Jornal de Cosmópolis 
   Mãe, avó, esposa, diretora, chefe, jornalista... São tantos os atributos de Silena Sousa, de 83 anos, que fica até difícil saber por onde começar falando sobre ela. Mulher guerreira que batalhou desde os 14 anos para ajudar em casa. Filha de Dora Toselli e Antonio Toselli, Silena faz parte dos seis filhos do casal.

Desde muito jovem precisou trabalhar fora, já que seu pai falecera quando ela tinha apenas 17 anos. O primeiro emprego, foi na Tecelagem da família Kalil Aun, localizada próxima ao Coreto, exercendo anos depois, os serviços de atendente na Loja Kalil, trabalhando ao lado da Dona Badra José Aun. Depois de casada e com as filhas gêmeas maiores, decidiu voltar aos estudos.

“Naquela época a gente só fazia o primário, mas eu gostava de estudar, adoro ler. Quando consegui voltar, me formei no colegial e em técnica de contabilidade. Tudo em Cosmópolis, tínhamos aqui, a Escola do Comércio. Muito conceituada, responsável pelo formação de nomes importantes da região”, recorda-se. 

Nessa época, Silena já trabalhava na Prefeitura de Cosmópolis, onde foi chefe do Departamento de Água e Esgoto.

Parte da história dessa grande mulher, está entre as crianças cosmopolenses no fim da década de 1950. Silena foi a primeira diretora do Parque Educacional de Cosmópolis, atualmente a EMEI Esther Nogueira. Conhecida popularmente, como Escolinha, localizada próxima ao antigo Hospital Beneficente Santa Gertrudes.

1959 / Área de lazer do Parque Infantil Esther Nogueira. Silena foi a primeira diretora da famosa escola

  Segundo Silena, a "Escolinha Esther Nogueira", foi um marco no ensino municipal .O complexo educacional, primeira escola construída pela Prefeitura de Cosmópolis,  possuía horta cultivada pelas crianças, espaço de música, amplas salas de aprendizado, e até piscina. Comandos por Silene, como diretora, e uma equipe especializada na alfabetização de crianças.

1959 / Crianças na famosa piscina da escola. Ao fundo de chapéu, o prefeito José Garcia Rodrigues, popular "Zé da Pege"


Foi muito boa essa época. Era diferente de hoje, que cada criança tem sua sala para estudar. Lá nós cuidávamos de mais de 150 crianças de 3 a 12 anos de idade”, conta

“Até hoje as crianças que estudaram lá me encontram e dizem: ‘não existe ovo com tomate igual o que era feito no Parque’, e olha que coisa mais simples né? Ovo e tomate”, acrescenta em meio aos risos.

1986/ Silena viaja no tempo, observando o exemplar comemorativo dos 20 anos do jornal. Edição escrita por ela, com fatos históricos publicados no jornal


No fim dos anos de 1970, quando Silena se aposentou do trabalho realizado na Prefeitura, um novo desafio surgiu: fazer o Jornal de Cosmópolis. Na época, ela e seu marido, Benedito de Sousa (ilustre personagem de vários setores cosmopolenses, como política, filantropia, imprensa e esportes) aposentados, decidiram abraçar a causa. 

1986 / Edição especial em comemoração aos 20 anos do Jornal de Cosmópolis




Tornaram sua casa em uma redação, emprestaram até o número de telefone (o conhecido 72-1951), e se dedicaram de corpo e alma ao novo negócio. Que, aliás, tinha tudo para dar certo, assim como deu, por 18 anos circulando pela cidade.



1980/ Evento no Cosmopolitano Futebol Clube, reportado no jornal, por Silena e esposo. Na foto, o primeiro prefeito eleito de Cosmópolis, João  Guilherme Paz Herrmann, Benedito de Sousa e Silena 

1982 / Feira Indústrial e Agrícola de Cosmópolis (FIAC), entrevista com o cantor  Martinho da Vila. Silena é a segunda, à esquerda. Benedito de Sousa, abraça o sambista

Silena foi a primeira mulher jornalista cosmopolense e apesar de ser uma novidade para Cosmópolis,  garante que foi muito bem aceita pela população. 

“Não havia preconceito, muito pelo contrário, todos nos tratavam muito bem, até porque tinham medo de a gente falar mal deles no jornal, principalmente na coluna “O Moita”, conta em meio às risadas.

 Silena  lendo novamente sua famosa coluna. Publicação de 1980, há exatos 38 anos

A famosa e polêmica coluna " O Moita", com seus destaques de 1986

A  coluna especial, para colocar aquela “pulga atrás da orelha”, que Silena se referiu, chamava-se “O Moita”. O peculiar nome, uma alusão a ficar na “moita”, observando tudo, sem ninguém perceber. 

A coluna surgiu em 1967, no Jornal ACP, onde Silena era colaborada com notícias de Cosmópolis. Simultaneamente, a coluna destacava fatos de Cosmópolis, Paulínia e Artur Nogueira. Posteriormente, com o surgimento do  Jornal de Cosmópolis, Silena ficou responsável direta, nas notícias cosmopolenses.

Na coluna, uma seleção de pequenas estórias da cidade, onde eram descritas informações pouco divulgadas das pessoas, sem exposição de ninguém, mas sempre deixando aquela dúvida: “como é que eles sabem disso?”.

“No começo era eu quem escrevia totalmente a coluna, mas daí as pessoas desconfiar, e quase descobrir quem estava por trás.  Então tive que chamar alguns colaboradores que não posso contar quem são até hoje. Eles observam tudo, faziam as anotações dos fatos mais interessantes, depois eu, transcrevia tudo com minhas palavras”.  



Uma mulher era da alta sociedade, escrevia sobre o pessoal que ela conhecia. Outro era um ex-prefeito que gostava de escrever alguns segredos de política. Assim formávamos, as estórias da coluna Moita e Você Sábia. As pequenas estórias, eram o maior sucesso do jornal,  muita gente comprava e assinava o semanário, só para ler as colunas”, explica Silena.

Assuntos polêmicos, curiosidades, reclamações e elogios, escritos com uma linguagem única, criada por Silena. Em tempos de Regime Militar, umas visitas na delegacia faziam parte da sua rotina, sempre para esclarecer assuntos da coluna.

"O mistério em saber quem escrevia, fazia o sucesso da coluna, sendo até motivo de investigação policial. Não sabendo ao certo, quem escrevia, todos do jornal foram chamados na delegacia, sobre um assunto politico descrito. Era só perseguição dos denunciantes, fomos absolvidos como em outras vezes", relembra Silena.


E para quem recebia o jornal de oito páginas impresso, não pense que era fácil produzir todo aquele material. Silena contava com vários colaboradores de notícias, cosmopolenses que traziam relatos da cidade, e até mesmo da capital, como era o caso de Adão Martelli. Nascido em Cosmópolis, Adão trabalhava e residia em São Paulo, enviando por cartas e ligações telefone, destaques do esporte e política paulistana.

Edição do Jornal de Cosmópolis, de 04 de janeiro de 1986


“Nós escrevíamos em Cosmópolis e mandávamos para Paulínia. Lá eles montavam as páginas e imprimiam em máquinas de prensa. Aí a gente tinha que ficar falando o que queria em cada página. Uma gigantesca maquina alemã, fazia a impressão de cada coluna e página”, relata.

“Depois que veio o computador facilitou muito nossa vida. Então nós escrevíamos e já diagramávamos em Cosmópolis mesmo, aí eles rodavam a impressão em Paulínia”, acrescenta.

Edição de 04 de outubro de 1986, traz como destaque, o orçamento para o ano de 1987

“Meu marido era muito envolvido com os esportes da cidade, então ele sempre escrevia sobre isso. Eu já escrevia mais sobre a parte social. E aí nós íamos juntando um pouco aqui e um pouco lá para escrever e montávamos cada edição do Jornal de Cosmópolis”, explica Silena.

Notícias, muitas notícias, o jornal não poupava os poucos espaços, para informar tudo sobre Cosmópolis



“Como as pessoas dizem, o jornal era pequeno, mas tinha tudo o que você precisava saber sobre Cosmópolis, era bem completinho”, acrescenta.

Silena ficou no Jornal de Cosmópolis até o fim da sua participação na direção do semanário, em 1998.

Silena explica para a jornalista Bruna Genaro, os processos de diagramação e criação de textos, usando como referência uma edição escrita por ela, em 1980


“Foi um tempo que tinha mais de seis jornais circulando em Cosmópolis, aí ficava extremamente difícil para todo mundo. O Carlos Tontoli, um dos fundadores e proprietários, era quem comandava os jornais de Artur Nogueira, Paulínia e de Cosmópolis (antigo Jornal ACP), quando faleceu, os herdeiros não continuaram seu legado. Então, aos poucos o Jornal de Cosmópolis, foi perdendo a força para se manter”, recorda-se Silena.


Seja no jornal, na escola, na prefeitura, Silena Sousa é uma mulher de fibra que escreveu sua história e também a história de Cosmópolis.

Nós do Acervo Cosmopolense parabenizamos a Silena pelo exemplo de mulher neste dia tão especial dedicado internacionalmente a todas as mulheres. Parabéns Silena e todas as mulheres cosmopolenses, vocês têm o nosso carinho e respeito!

Encontro de gerações do jornalismo cosmopolense, a jovem Bruna Genaro (24 anos) e Silena Sousa (83 anos)


Por Bruna Genaro Leite, mãe, esposa, jornalista, consultora de amamentação, filha...



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