quinta-feira, 7 de setembro de 2017

AINDA ONTEM EM COSMÓPOLIS...

Há exatos 72 anos
Cosmópolis, 07 de setembro de 1945


“DIA DA PATRIA”
 O registro fotográfico apresenta a mocidade “Alviverde” do Cosmopolitano Futebol Clube, momentos antes do desfile do “Dia da Pátria”, realizado na Avenida Esther.
As cores verde e branca, símbolos do Clube Cosmopolitano, contrastavam com as cores da bandeira nacional.

Os homens, vestiam camisas brancas, com faixas verdes nas mangas, em evidência no peito, o brasão do Clube.

As mulheres, vestidos em tons verdes, blusas brancas com faixas verdes no peitoral, mangas e golas. Todas as camisas ornamentadas com “gola V”, realçado em verde, simbolizando a letra V de vitória.

Usando terno, no lado esquerdo, está Dr. Moacir do Amaral, primeiro prefeito de Cosmópolis.

A foto foi registrada na Rua Baronesa Geraldo de Rezende, próxima a rua Sete de Setembro. No lado esquerdo, a lendária Pensão Talassi (demolida nos anos de 1980, atual Azzo Galeria e Nallin Despachante), e no lado esquerdo, a sede social e administrativa do Cosmopolitano (Hotel Pousa Lá).

DITADOR EXALTADO COMO SÍMBOLO MAIOR
Na frontaria, dois portas bandeiras traziam a estandarte do Clube Cosmopolitano. Suas hastes minuciosamente adornadas com fitas alviverdes.
O ditador, que invadiu, humilhou e saqueou Cosmópolis, entre outras cidades paulistas, no período da revolução Constitucionalista de 1932, era enlevado como símbolo maior da Pátria.
Um quadro revestido com flores, exibia a foto de Getúlio Vargas, abaixo uma placa com a palavra pátria, representando assim o presidente como símbolo da nação.
Um simbólico V nas cores verde e amarela, ladeava o quadro do Ditador. Atrás da alegoria, a bandeira nacional, mostrando altiva a lança de sua ponteira.

O PERCURSO
  O trajeto do desfile, tinha início na Praça Major Arthur Nogueira (Coreto), saindo em marcha até a Rua Antônio Carlos Nogueira, seguindo para a Rua Campos Salles.
A celebração terminava com o juramento da bandeira, regimentado com honrarias ao pavilhão nacional e ao presidente ditatorial Getúlio Vargas, no antigo Paço Municipal.
Participavam do desfile alunos do Grupo Escolar de Cosmópolis (Escola Rodrigo), esportistas dos clubes cosmopolenses (Funilense, Bota Fogo e Cosmopolitano), ferroviários da Cia Sorocabana, funcionários da Usina Ester e indústrias têxteis.
Populares enfeitavam troles, charretes, carros, caminhões e até bicicletas, nas cores da bandeira nacional.
Os puxadores do desfile, quem seguia na frente abrindo os caminhos, eram os componentes da tradicional Corporação Musical de Cosmópolis, executando marchas, dobrados e hinos militares nacionais.

MUDANÇA DE NOME 
 O “Dia da Independência”, exaltado desde 7 de setembro de 1822, foi rebatizado em 1930 como “Dia da Pátria”. A mudança foi uma exigência do ditador Getúlio Vargas, que acreditava que o nome Independência, seria uma alusão a possíveis revoltas populares contra seu governo.
O nome predominou até o fim da era Vargas (com seu suicídio em 1954), retornando novamente com o Golpe Militar de 1964, estabelecido pelos sensores do novo governo.
Com o processo de “redemocratização”, no fim dos anos 1980, a data voltou a ser oficializada como “Dia da Independência”.

72 ANOS DO FIM DA GUERRA
A Segunda Guerra Mundial terminava, o dia 2 de setembro ficava marcado como o fim dos piores anos da história da humanidade.
As comemorações estendiam-se mundialmente durante todo o mês de setembro.

Cosmópolis festejava, a pequena cidade recém emancipada de Campinas, unia-se nos preparativos para o dia 7 de setembro.

A população, ansiosa aguardava a volta dos filhos Expedicionários, os pracinhas cosmopolenses.

Era o fim dos racionamentos de trigo, açúcar, querosene, gasolina e tantos outros artigos. No período da guerra, os produtos abasteciam as tropas aliadas contra o eixo nazifascista.

As lágrimas de tristeza, sentidas pelas marcas da guerra, contrastavam com a alegria do recomeço da paz mundial.
O dia 7 de setembro era glorificado com as honras do “Dia da Pátria” e as festividades do fim da Grande Guerra.

A antiga Estação da Carril Funilense, hasteava a bandeira do pavilhão brasileiro no topo da caixa d’água de abastecimento dos trens.

O tremular da bandeira era visto até mesmo do Morro Amarelo, onde as jardineiras e os trens da Sorocabana, apitavam ecoando distante sua chegada na Villa.

A estação recebia fitas e adereços nas cores nacionais, a cidade toda preparava-se para a chegada dos soldados cosmopolenses...

A continuação desta história, fica para a próxima...

Texto e foto Adriano da Rocha

VOLTA DA FESTA DO IMIGRANTE


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

FESTA ALEMÃ ENTRE AMIGOS

Festividade celebra os 120 anos da criação do Núcleo Colonial Campos Salles





  Comidas típicas alemãs como o eisbein acompanhado com chucrutes e kartoffel, muito chopp claro e escuro, aguardam os visitantes neste fim de semana na ‘VIIº Festa Alemã entre Amigos’, realizada na região histórica da Escola Alemã, em Cosmópolis. 

A festa é promovida pela A.A.E. A (Associação dos Amigos da Escola Alemã), celebra os 120 anos da criação do Núcleo Colonial Campos Salles e os 87 anos de fundação do salão social da escola, inaugurado em 06 de julho de 1930. 
O prédio é um dos últimos remanescentes da colonização alemã na cidade, pertencente há dez anos ao patrimônio municipal.

Festa Alemã 2017
A festa tem início no sábado, dia 02 de setembro, às 19 horas com a abertura do salão para o baile e venda de comidas e bebidas. 

As “mütter”, as mães alemães da festa, comercializam nos dois dias do evento a salada de kartoffel (uma gostosa mistura de legumes, ovos e batatas amassadas com ervas), chucrute (salada de repolho) e o famoso Wurst, o salsichão alemão. 
A mesa de doces está entre as mais concorridas, com diversos doces típicos, em destaque o apfelstrudel, doce austríaco de maça com massa folheada. Na aérea externa várias opções de espetinhos de churrasco e bebidas.

No domingo (03) a festa continua às 12 horas com o tradicional almoço alemão, onde é vendido o eisbein (joelho de porco), prato principal da festa. 

O Eisbein é servido com a Wurst (Salsicha vermelha e branca), Sauerkraut (chucrutes), Kartoffel (Batatas), Senf (mostarda), pepino e pão preto. 

A receita e preparo do eisbein, é a mesma dos primeiros colonos alemães que chegaram a Cosmópolis no fim do século 19.
Também serão vendidas outras opções de porções e churrasco. 

Baile alemão
A animação musical da festa é feita pela dupla Sandro Romig e Wilson Haffeman, vindos da cidade de Pomerode, Santa Catarina. No repertório músicas folclóricas alemães, cantadas no dialeto Plattdütsch, sucessos caipiras e atuais interpretados ao som da inconfundível concertina germânica.

Salão corria o risco de desaparecer
O “Gesang Verein Deutsche Eiche”, que na sua tradução ao português diz “Sociedade de Canto Carvalho Alemão” (a alusão ao Carvalho é pela predominância da madeira nas construções alemãs),foi criado pelos imigrantes germânicos como um salão social para eventos e festas da comunidade Luterana do Núcleo Colonial Campos Salles. 

No passado o salão foi referência na região pelas festas organizadas pela comunidade alemã, ficando desativo durante décadas com o fim do núcleo e, principalmente por inúmeras complicações legais geradas sobre a posse do local. 

Depois de mais de 20 anos de abandono, sendo destruído parcialmente pelas várias invasões de marginais e ocupações irregulares, o salão foi integrado ao patrimônio público cosmopolense no início dos anos 2000, sendo restaurado pela prefeitura.

Buscando preservar o salão, considerado o último marco da colonização germânica em Cosmópolis, foi criada em 2008, a Associação dos Amigos da Escola Alemã (A.A.E. A). Formada por descentes de imigrantes alemães e suíços, a associação recebeu da prefeitura a concessão do local, iniciando então inúmeros eventos e projetos culturais para preservar e revitalizar o histórico salão. 

Parte da renda obtida nas festas é utilizada nos serviços de manutenção do prédio, como pinturas e reparos, outra parte é destinada aos serviços sociais do município.

Serviço:

VIIª Festa Alemã entre amigos
Data: 02 e 03 de setembro
Horários: Sábado (2) às 19h00, Domingo(3) a partir das 12h
Local: Salão de Festas da Escola Alemã
Endereço: Região rural da Avenida Ester, Núcleo Colonial Campos Salles

A entrada é gratuita nos dois dias da Festa, somente é vendido o convite para o almoço, onde é servido o Eisbein. O valor do convite é R$ 70,00, bebidas não estão inclusas. As vendas dos convites são antecipadas.

Informações e reservas: (19) 9 9268-5228 / 3872-2914 = Falar com Cristiano



terça-feira, 18 de julho de 2017

ADEUS "GERSO SUCATEIRO"


 Livros raros, antigas publicações de revistas, almanaques e jornais semanários, são inúmeras as fontes para escrever sobre a história de Cosmópolis. Mas a verdadeira história cosmopolense, descrita com franqueza e exatidão, somente é contada por seu povo.
Os olhares de um “proseador” contam a sua peculiar história, a cada ponto de vista surgem novos detalhes, descrições diferentes ao narrar um mesmo causo cosmopolense. Nesta junção de causos “proseados” na informalidade, em conversas ao pé do fogo de um café sendo feito, ou no pé do fogo de umas “cangibrinas”, encontrei as mais perfeitas narrativas da história de Cosmópolis.
Em um curto espaço de tempo perdemos muitos contadores da nossa verdadeira história, filhos de nascimento, cosmopolenses de opção e coração. Contadores de estórias e personagens das próprias histórias que contavam.
Cosmópolis despediu-se de um conhecido personagem, figura de inúmeros causos dos tempos da Villa e colônias.

"Gerso do Ferro Véio"
Faleceu na quarta-feira (02), aos 74 anos de idade, o contador de causos Gelson Barbieri, o popular “Gerso do Ferro Véio”. Qual o cosmopolense que não conheceu essa figura popular?! Assim como seus incontáveis causos de Cosmópolis, com narrativas engraçadas, assustadores e tristes, escreveu sua própria vida em histórias de altos e baixos.

Pessoa simples, com pouco estudo escolar, mas de uma vivência incrível. Seus defeitos (quem não tem!!), eram poucos comparados com suas virtudes, homem de sorriso franco e verdadeiras amizades.

Na sua mocidade foi boêmio assumido e inveterado, não conhecia limites em suas noitadas pelos bares da Biquinha, Vila Nova e região central. Sua habilidade nas cartas de baralho era descrita por vários “butequeiros” como um dom único, conquistou importante posição social com seus trunfos e ganhos nas mesas. Nas décadas de 1960 e 70, era enaltecido nos redutos de carteado como o “Rei do Baralho”, fez fortuna desfazendo fortunas de azarados da sorte.

Um dia, conversávamos sobre seus áureos tempos de “reinado”, Gerson contava as histórias não com orgulho, mas para ensinamento, declarou:
“Eu tinha o dom do jogo nas mãos. Todos os jogos que dependiam da sorte nas mãos, ninguém conseguia bater comigo. Foi assim nas cartas e no bocha. Ao mesmo tempo que ganhava nas mesas e campos, perdia um bem que jogo nenhum me fez ganhador, a família.
Foi então que abandonei essa falsa coroa de rei.O mesmo jogo que trazia a sorte, também puxava o azar. Esse reinado era só ilusão”, dizia Gerson dando como exemplo suas histórias de jogo.

Representou Cosmópolis em inúmeros campeonatos de cartas e bocha, sendo campeão por anos consecutivos nos torneios estaduais de bocha realizados no Bar do Rocha, no Villa Nova (antigo Vila Mariana).

Empreendedor em vários ramos comerciais, foi um dos primeiros comerciantes de materiais reciclados da cidade, mais de 40 anos de “ferro velho”.
Na secular rua, aberta por trabalhadores da Carril Funilense nos idos de 1890, construiu sua casa e o depósito de materiais, sendo referência como “sucateiro” na Rua Baronesa Geraldo de Rezende.

Seu nome recebeu a junção da profissão, “Gerso do Ferro Véio”, e mesmo com o arrendamento do depósito (depois de sofrer a amputação de uma das pernas, ficando incapacitado do serviço), o apelido perdurou por toda sua vida.

Recordo suas histórias da lendária mulher de preto, uma tenebrosa assombração que circulava na região da extinta estação de trens. Segundo Gerson, era uma moça que foi assassinada próxima à porteira da Fazenda do Funil (região do Bar do Tergolino). Vestida de preto, usando um véu cobrindo o rosto, percorria as ruas nas noites de sexta-feira, buscando o “livramento” do seu enfadonho destino.

Outra história sempre contada por Gerson era da sua “revivida”, quando ficou meses em coma e morreu por alguns instantes no leito hospitalar.
Nesta sua segunda chance de vida, mudou todos os seus pensamentos sobre o mundo e os viventes.
“Lembro de tudo, não era para lembrar, mas eu lembro. Acho que era o céu, vi muitos conhecidos que partiram, o lugar era extraordinário, um mundo de luz, paz e serenidade. Não queria partir, mas um senhor que não sei quem era, me disse ainda não é sua vez de ficara aqui”. Foi o último causo que ouvi do Gerson, contado no início do mês de junho.

Talvez foi a doença, ou a saudade da esposa que faleceu há alguns meses passados, sempre buscamos motivos e razões para a morte. A existência no mundo tem como única certeza absoluta a morte. Não somos donos da nossa vida, mas recebemos a livre oportunidade de escrever a cada dia a nossa história nesta vida.

Descanse em paz “Gerson véio”, espero que tenha encontrado o céu que descrevia em seus causos. Os sinceros sentimentos aos familiares e amigos, vai o homem ficam suas histórias...


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segunda-feira, 3 de julho de 2017

FLORECER DOS IPÊS COSMOPOLENSES




    Junho terminou, mas deixou sua marca com a florada dos ipês roxo e rosa. Até o mês de setembro, o florir dos ipês é destaque em vários pontos da cidade de Cosmópolis.
Quanto mais frio, maior a florada, avivando com a temperatura a coloração das delicadas flores.

Nos caminhos centenários de um dos bairros rurais mais antigos da região, sua beleza contrasta na paisagem. Eis um ipê florido no bairro Serra Velha, região rural que marca a divisa entre Cosmópolis e Limeira.
  
Serra Velha da serraria e dos germânicos
O nome do bairro é referência a uma serraria que existiu na região no início do século 19. Estrategicamente construída em uma grande reserva de mata virgem, a serraria fornecia madeira para as construções das crescentes cidades de Campinas, Limeira e Piracicaba.
Em 1816, a região foi desbravada através de uma sociedade, entre o Senador Vergueiro e o Brigadeiro Luís Antônio de Sousa. Nesta parceria surgia os primeiros engenhos de cana de açúcar da região, edificados em Limeira e Piracicaba. Contrário ao trabalho escravo, o Senador trouxe da Europa centenas de imigrantes germânicos, criando nas suas fazendas as primeiras Colônias alemães do Brasil.

Antes do Núcleo Colonial Campos Salles
Registros da prefeitura de Limeira, destacam o Serra Velha e demais bairros rurais próximos, como os primeiros locais do Brasil a receberem imigrantes alemães. Em 1838, a serraria do bairro já é demarcada em mapas, como também as propriedades rurais e colônias de imigrantes alemães.

Texto Adriano da Rocha
Foto Paola Marques

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sexta-feira, 30 de junho de 2017

A DERADEIRA COLÔNIA CANAVIEIRA


SOBRADO VELHO: a última colônia cosmopolense, fora de Cosmópolis
Texto e fotos Adriano da Rocha
Edificadas como moradia de trabalhadores da Usina Ester, a Colônia foi construída no início do século passado



 O intenso tom vermelho nos tijolos à vista, portas e janelas pintadas em um azul único, telhados baixos, pequenos jardins indicando a divisão das casas unidas por paredes. Demarcando as modestas moradias, cercas de bambu e ripas, uma porteira feita de dois troncos de madeira. Flamboyants, sibipirunas, entre outras árvores plantados em uma extensa fileira.


Traços marcantes da Colônia do Sobrado Velho, último conjunto de casas coloniais existente na região. Edificações reminiscentes do maior complexo colonial do estado de São Paulo, construídas pela Usina Esther no início do século passado.






Localizada em território pertencente a cidade de Americana, a Colônia está há 8 quilômetros distante de Cosmópolis. Seguindo o mesmo processo que extinguiu as colônias cosmopolenses, a Sobrado Velho somente não foi demolida graças a união dos moradores de Americana. 

Rodovia Rural Ivo Macris (Paulínia/Americana) é o principal acesso á Colônia Sobrado Velho


  Em 2015, um grupo formado por moradores das colônias, membros de organizações culturais, exigiram da prefeitura de Americana a intervenção junto ao Estado, no processo que oficializava a Colônia como patrimônio histórico e cultural paulista.


O CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico Arqueológico, Artístico e Turístico), ainda não oficializou o tombamento; porém, uma lei criada pela Câmara de Vereadores de Americana, protege as construções, impedindo possíveis demolições e modificações nos imóveis. 

Proteção instalada pelo DER demarca o perímetro entre a Colônia e a Avenida 

Mesmo com a modernidade e pequenas adaptações, as construções ainda preservam a arquitetura original


  A região desconhecida por muitos cosmopolenses, preserva em outro município, parte da história de Cosmópolis, principalmente da fase conhecida como “ouro branco paulista”. Uma alusão ao algodão e açúcar produzido na região, responsável por impulsar o Estado como maior produtor mundial do setor. 





Acesso entre caminhos canavieiros


O conjunto de casas é destaque na paisagem da movimentada Rodovia rural Paulínia-Americana. O tortuoso caminho é utilizado como fuga dos pedágios da Anhanguera e Rodovia Zeferino Vaz (SP-332), e acesso ao centro industrial do município. A estrada rural nomeada no passado como Avenida Nicolau João Abdala, está em processo de renome para Ivo Macris, que já nomeia a vicinal rural que liga Americana à Paulínia e Cosmópolis. 

Estrada canavieira de acesso ao antigo estábulo da Usina Ester


  A vicinal é a principal ascensão as Colônias, o acesso à rodovia é feito pela estrada canavieira que liga a Usina ao antigo Estabulo da empresa, ou, através da Ponte de Ferro. O antigo caminho, famoso no passado, percorrido pelos cosmopolenses para irem nas lendárias festas juninas do sitio do Zico Felix.

Na sobra de um gigantesco flamboyant, uma placa demarca o local


Uma placa instalada pelo DER (Departamento de Estradas e Rodagens) demarca aos motoristas o local como Sobrado Velho. O nome, é uma alusão a sede da lendária Fazenda Salto Grande (propriedade rural que originou Americana), distante seis quilômetros da Colônia.


História centenária


As construções seguem o mesmo projeto das extintas colônias cosmopolenses, elaborado pelo “Escritório de Arquitetura e Engenharia Ramos de Azevedo”. As colônias abrigariam os imigrantes de vários países da Europa, vindos ao Brasil para o trabalho agrícola na região, obedecendo uma exigência do estado, firmada com os consulados. 



As casas feitas com tijolos, produzidos em uma olaria próxima a Usina, substituíam rudimentares construções do tempo da escravidão e início dos núcleos coloniais no Estado. Até então, edificadas com madeira e barro prensado.


Em 1898, o renomado escritório, responsável por construções como o Theatro Municipal de São Paulo, Pinacoteca, Catedral Metropolitana de Campinas, foi contratado pela família Nogueira para um série de construções em Cosmópolis e região.


Com a assinatura de Ramos de Azevedo, sendo feita a supervisão das obras pelo Escritório Dumont Villares (pertencente ao sobrinho de Santos Dumont e cunhado de João Manuel de Almeida Barbosa, dono da Fazenda Funil), foram construídos o complexo industrial da Usina Esther, Palacete Irmão Nogueira (conhecido Sobrado, demolido em 2011), Igreja Matriz de Santa Gertrudes (demolida em 1958), estações da Companhia Carril Agrícola Funilense e central de abastecimento da empresa em Campinas (atual Mercadão).






Canaviais e energia elétrica


Com o constante crescimento das produções da Usina Esther, era de extrema necessidade a expansão dos canaviais, como também a construção de colônias para abrigar os novos trabalhadores. Surgia neste período, compreendido do início de 1900 até a década de 1920, inúmeras novas colônias nos entornos dos canaviais da Usina.


Em 1902, na divisa das terras da Usina Esther com a lendária Fazenda Salto Grande, começam a ser edificadas várias colônias. A mais distante da Usina Esther seria a Colônia do Sobrado Velho, construída estrategicamente próxima da linha férrea da Funilense que, seguia para Americana rumo a Vila José Paulino e Campinas.

1907/  Comendador Franz Müller, esposa e filhos, no casarão da Fazenda Salto Grande,em Americana-SP. Acervo PMA


A construção da colônia foi uma parceria oficializada pelo Major Arthur Nogueira com o Comendador Franz Müller, então proprietário do complexo industrial têxtil Carioba, e fundador da Usina Termoelétrica do Salto Grande. 

Vista aérea da Fazenda Salto Grande, com destaque para a represa do Rio Jaguari, responsável por movimentar as turbinas da Usina Termoelétrica do Salto Grande. Registro de 1944 / Acervo E.N.F.A


Nesta parceria, o Comendador arrendou parte das terras da Fazenda Salto Grande para a expansão dos canaviais da Usina Esther. Em contrapartida, a Salto Grande começava a fornecer energia elétrica para as vilas campineiras de Cosmópolis, Arthur Nogueira, José Paulino (Paulínia), Santa Barbara e Americana.


O acordo rentável para ambos empresários, foi oficializado por José Paulino Nogueira, irmão do Major e um dos proprietários da Usina Esther, na época presidente da Câmara de Vereadores de Campinas.

No início da década de 1910, a Villa de Cosmópolis já estava totalmente iluminada, como também os distritos próximos. A progressista vila campineira, possuía energia elétrica e serviço telefônico, gerados pela Salto Grande e interligados pela Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). A parceria duraria até 1929, quando a Salto Grande foi vendida para a CPFL. Uma segunda Usina Termoelétrica foi construída em 1934, a Cariobinha, porém somente fornecia energia aos maquinários do polo têxtil.


Emancipação muda a posição da Colônia
1906/ Vista parcial da Villa Americana, então pertencente como bairro da cidade de Campinas / Foto Acervo Histórico da Prefeitura de Americana-SP



No fim dos anos de 1930, as terras da Colônia Sobrado Velho foram incorporadas ao distrito de Americana, no processo que emancipava Cosmópolis da cidade de Campinas.


Em 30 de novembro de 1944, com a oficialização do decreto lei de emancipação política e administrativa de Cosmópolis, o novo município paulista perdia grande parte do seu antigo território distrital, reduzindo significativamente as terras cosmopolenses.

No mesmo ano, era vendida ao empresário João José Abdala, as terras da Fazenda Salto Grande, assim como todo complexo hidroelétrico e têxtil do grupo Carioba.


Com a posse da Fazenda Salto Grande, o Grupo J.J Abdala começou a investir na produção de álcool e açúcar na Usina São José, construída no Salto Grande. Nesta época o Grupo J.J era uma das maiores corporações privadas da história brasileira, com destaque em vários setores agrícolas.


No fim dos anos de 1940, a Colônia Sobrado Velho começava a ser moradia de funcionários da Usina São José. Os trabalhadores da Usina Ester que residiam na Sobrado Velho eram transferidos para outras colônias.


Modernização da Usina Ester
Este período marcaria a fase de modernização do complexo industrial da Usina Ester, investindo na ampliação das produções e principalmente na concorrência com o Grupo J.J.


Em uma negociação milionária, a família Nogueira adquiria em Limeira a Usina Tabajara, de propriedade do governador Ademar de Barros. A Usina Ester iniciava a década de 1950 como uma das maiores produtoras de açúcar da Americana Latina.


Na região da Colônia do Bota Fogo, eram construídas novas casas para abrigar famílias vindas da Fazenda Cresciumal, em Leme. O açúcar produzido na Usina Ester começava a ser vendido internacionalmente, tornando-se líder de mercado no Estado.


O Grupo J.J Abdala mudava seus investimentos, centralizando somente no complexo hidroelétrico e têxtil da Carioba. A Usina São José mudava seu seguimento, produzindo somente álcool para a indústria de bebidas.






Regresso da Esther e fim da Carioba


No fim dos anos de 1960, a Fazenda Salto Grande e Carioba entram em um período de decadência financeira. As terras da Fazenda são arrendadas novamente para a família Nogueira, a


Colônia do Sobrado Velho volta a abrigar trabalhadores da Usina Ester.
Inúmeras ações trabalhistas, a concorrência de outras tecelagens e principalmente a escassez da mão de obra, começavam a levar a falência do Grupo Carioba. Em 1977, o complexo têxtil do Carioba é fechado permanentemente.
Típica cerca de bambu limita o quintal da casa colonial



União popular



No início dos anos 2000, a Sobrado Velho entra no processo de desapropriação e demolição, o mesmo seguido nas colônias cosmopolenses. Segundo Rosângela Lima Sampaio, proprietária do Rancho do índio e membro da comissão de moradores que impediu a demolição, já estavam sendo feitas até a comercialização de portas, janelas e tijolos das casas. 







  Funcionários da Usina chegaram a desmanchar parcialmente várias casas, caminhão e trator estavam de prontidão para agilizar os trabalhos de demolição.


Com a união dos moradores, exigindo a intervenção do poder público, as obras que destruíram mais de 100 anos de história foram embargadas. As casas destruídas no processo de demolição e saque de materiais, foram reconstruídas pelos moradores e grupos sócio culturais de Americana.
Rosângela de Lima Sampaio, proprietária do icônico Rancho do Índio, uma das principais referência da Colônia na região


“Sem a nossa união, a colônia não existiria mais. Foi uma luta para não deixar tudo isso virar um canavial. Hoje graças a Deus, com apoio da prefeitura e população, a colônia é patrimônio histórico de Americana. O local faz parte do roteiro cultural do município”. Disse Rosângela, que ao lado do esposo Saturnino Sampaio da Silva, o Índio, construíram em 2003 o popular Rancho do índio.

O Bar possui uma construção sem igual na região, atraindo semanalmente um público fiel na Colônia, formado por trilheiros, motoristas, empresários da área industrial, e principalmente ex-colonos da Usina Ester.



Na próxima postagem, a história e fotos do Rancho do Índio. O icônico bar construído ao lado da Sobrado Velho, as margens da movimentada avenida rural.


Texto e fotos Adriano da Rocha

#Acervo11Anos #MuitoMaisSobreCosmópolis #SobradoVelho #Colônias #AcervoCosmopolense



terça-feira, 27 de junho de 2017

ADEUS AO MESTRE BERTO TONUSSI

70 anos dedicados à barba,cabelo e bigode




    Cosmópolis diz adeus ao filho Roberto Tonussi, o popular Berto Barbeiro. Um dos mais queridos “Reis da Tesoura”, faleceu na manhã de domingo (26), aos 86 anos de idade. Berto era o mais antigo comerciante, ainda em atividade, na cidade.
Foram 70 anos dedicados ao nobre ofício da barbearia, suas tesouras permaneceram afiadas, as lâminas da navalha em fio, até seus últimos dias de vida. Berto deixa viúva Leonilde Marques de Souza Tonussi, com quem esteve casado durante 64 anos, o filho José Roberto, casado com Maria Giuzio (professora de piano Mariazinha), netos e bisnetos.
  
A Barbearia Tonussi estava instalada em um espaço adaptado, criado em sua casa na rua Baronesa Geraldo de Rezende. Antes da mudança, um dos seus endereços mais conhecidos foi na Rua Expedicionários, em frente ao Banco Caixa Econômica. Neste local, a Barbearia permaneceu quase 20 anos.
  Sem herdeiros na profissão, o último Tonussi barbeiro encerra 91 anos de história comercial, iniciada pelo patriarca João Tonussi, com a abertura do salão na Avenida Esther em 01 de maio de 1926.

SALÃO DE BARBEARIA TONUSSI E FILHOS
  No fim do século 19, chega na região do bairro Capela, o casal de imigrantes italianos Santa Carandina e Ferdinando Tonussi. Traziam na bagagem a esperança de uma nova vida, como também os objetos que transformariam a história da família: pente, tesoura e uma navalha.


As mãos calejadas pelo árdua trabalho nas lavouras de café, ensinam as primeiras lições de barbearia ao filho João. Apaixonado pelo ofício, o jovem começa a cortar cabelo, barba e bigode dos colonos nas fazendas próximas ao sítio da família.
Em uma passagem na Villa de Cosmópolis, João recebe uma proposta comercial do barbeiro Isidro Sanches. O imigrante espanhol iria para São Paulo, colocando à venda sua antiga barbearia na Avenida Ester.

A clientela já era fixa, o salão muito bem montado e localizado, dois quarteirões da Estação de trens da Sorocabana, abaixo da Igreja Matriz de Santa Gertrudes. O local exato, ficava entre os atuais banco Santander e Bradesco.
Recém casado com Inês Antoniolli, João decide vender tudo que tinha para comprar a barbearia, começando uma nova vida na Villa. Sua decisão foi criticada pela família, sendo considerado como louco e aventureiro.

Livro caixa da Barbearia Tonussi, o famoso caderno de contas . O livro marca a inauguração do salão em 1926


 Para melhor atender os clientes, embarca para São Paulo, onde faz um aperfeiçoando na capital. Em pouco tempo seu trabalho começa a ser reconhecido, tornando-se destaque entre as várias barbearias da Villa de Cosmópolis.

O movimento, principalmente no sábado (dia de folga dos colonos da Usina), formava enormes filas na pequena barbearia, a clientela aumentava a cada dia. João decide ensinar aos filhos o oficio de barbeiro.

Eram oito filhos homens, todos aprenderam a cortar cabelo e afeitar barba e bigode, como dizia na época. Inicialmente acompanham o pai, os filhos Fernando, Pedro e Ponciano Tonussi.
Na Avenida Ester, esquina com a Rua Santa Gertrudes, João compra uma outra propriedade, na qual inaugura a nova barbearia. Neste local, atualmente funciona a Sorveteria Palácio.

BARBEARIA E ELETRÔNICOS
 Os filhos começam a seguir outros rumos, aperfeiçoando-se em novas profissões. Impulsionado pelos irmãos José e Ponciano, que aprenderam eletrônica acompanhando as publicações da “Revista Carioca”, Pedro e Fernando tornando-se habilidosos técnicos.
Ponciano começa a trabalhar como funcionário público na Coletoria Estadual.

José muda-se para São Paulo, onde estuda e dedica-se totalmente ao conserto de rádios e televisores.Acompanhando o irmão seguem Pedro e Fernando, voltando formados para Cosmópolis, onde inauguram a primeira oficina técnica da cidade.

Pedro e Fernando são considerados os pais da eletrônica em Cosmópolis. No passado, os irmãos eram referências regionais no conserto de televisores, rádios, vitrolas, grafonolas e na instalação de antenas e, até, na fabricação de aparelhos de rádios.
Em 1947, aos 16 anos, iniciava oficialmente na profissão um dos irmãos mais novos, era o jovem Roberto. Ao lado do pai, Berto Tonussi criava suas próprias técnicas, conquistando clientes e aumentando a freguesia.

O jovem mostrava agilidade nas mãos, tinha o pulso firme e olhar atendo a cada detalhe no corte. Predicados que o acompanharam nos 70 anos de profissão

BERTO DOS CABELOS, BARBAS E BIGODES
 Com o falecimento do pai, a inevitável partilha dos bens entre os irmãos, o imóvel da Barbearia era então vendido.

Berto seguia com a barbearia em novos endereços, trabalhando sempre nos arredores da sua querida Avenida Ester, seu berço de nascimento e profissão.
Nas mudanças acompanhavam seus objetos de profissão e os centenários móveis, como as cadeiras da Irmãos Campanille. Em seus confortáveis acentos de couro puro, suas habilidosas e precisas mãos fizeram a cabeça de gerações de cosmopolenses.

Construídas em ferro forjado e madeira nobre, possuíam ricos entalhes no madeiramento, com destaque aos adornos, como os icônicos pés de leão em bronze. No lado direito, ficava pendurado o couro de anta, utilizado para manter o fio da navalha.
Nas penteadeiras, pintadas no famoso tom azul Usina Esther (alusão a cor dos madeiramentos das casas de colonos), suas inseparáveis ferramentas de profissão.

Objetos, utensílios utilizados pelo hábil barbeiro nos 70 anos de profissão


 Sempre organizados com total esmero e minúcia, ficavam tesouras especificas para os mais diferentes tipos de cabelo e acabamento, borrifadores de água e talco, pentes feitos de baquelite e osso, escovas de limpeza e pincéis confeccionados com crinas de cavalos.
Para fazer a típica espuma de barbear, um pequeno recipiente esmaltado, onde uma resistência esquentava a água e preparava o produto.
Seguindo as exigência sanitárias, a navalha virou decoração, utilizando somente laminas Wilkinson descartáveis. A modernidade também aposentou a máquina manual de corte, dando lugar para a motorizada com vários níveis.

Nas gavetas, com puxadores em acrílico ornamentado, os aventais do cliente (“segura cabelo”), toalhas para secagem e compressa quente de rosto. Entre os espelhos bisotes, onde o cliente observa o mestre, várias prateleiras de vidro.

Em cada espaço, ficavam expostos os produtos para afeitar a barba e bigode, como colônias, loções, alfazema, cremes e enormes frascos de álcool, utilizado para desinfetar os objetos e limpar as mãos.
Nesta penteadeira, em lugar de destaque o velho radinho Motobras, sempre sintonizado em uma emissora de notícias ou programas esportivos. Em um banquinho, inúmeros revistas e jornais esportivos, e a última edição do semanário local, a Gazeta de Cosmópolis.

Na penteadeira, um grosso livro de capa dura, com as folhas amareladas pelos mais de 80 anos. A caderneta de cortes, onde eram registrados os “fiados” da barbearia, costume na época. Nas páginas, dezenas de clientes, ilustres cosmopolenses que hoje nomeiam ruas, avenidas e praças públicas.

Ainda mais preciso que as mãos do mestre barbeiro, eram as horas marcadas no secular relógio Jugmans, pendurado em lugar de evidência. O badalar a cada quinze minutos, ecoado do imponente relógio por todo o salão, registrando o tempo e sua agilidade nos cortes.


Em cada espaço, pedaços da história comercial da família. 


AO BARBEIRO E AMIGO
 Os doutores de medicina utilizam o jaleco branco como um símbolo na sua profissão. Em Cosmópolis, o jaleco branco vestiu durante 70 anos, um dos maiores Doutores na profissão de barbeiro.

Fez parte de uma geração de cosmopolenses praticamente extinta, onde os filhos da terra, honravam sua cidade em todos os setores da vida.

Homem de modos simples, extremamente tímido e reservado, aprendeu somente o básico no Grupo Escolar de Cosmópolis, mas era um renomado mestre na faculdade da vida.
Bacharel em cabelo, barba e bigode, doutor em psicologia.


Sim, igual ao psicólogo em seu consultório, ouvia com paciência as aflições, amarguras e alegrias de cada cliente.

Desconhecia classes sociais, não existia rico ou pobre na barbearia, sentado em sua cadeira todos eram majestades. Até doía a coluna e as panturrilhas, mas atendia com a mesma qualidade no fim do dia, o último como fosse o primeiro freguês.

Vai em paz estimado profissional e pai de família. Por mais que o cabelo, barba e bigode cresçam, sempre estará na cabeça do povo cosmopolense. Adeus Berto Barbeiro...

Texto e fotos Adriano da Rocha